A nova composição racial brasileira segundo o Censo 2010

Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore

21/01/12 | 23:01

Raça é um termo que não possui o mesmo significado para todas as pessoas e sua definição depende, em grande parte, do motivo pela qual é avaliada. O que faz um indivíduo pertencer a determinado grupo racial varia de acordo com a época e a região do mundo em que ele vive e com os interesses políticos e culturais em classificá-lo em um determinado grupo (Alves et al, 2005). Isso não acontece só quando o classificam, mas também quando ele declara sua própria raça. Segundo Cavalli-Sforza (2003), qualquer classificação racial é arbitrária, imperfeita e difícil. Poderíamos dizer que se trata de uma questão extremamente polêmica e com nuances de subjetividade.O Censo 2010 detectou mudanças na composição da cor ou raça declarada no Brasil. Dos 191 milhões de brasileiros em 2010, 91 milhões se classificaram como brancos, 15 milhões como pretos, 82 milhões como pardos, 2 milhões como amarelos e 817 mil como indígenas. Registrou-se uma redução da proporção de brancos, que em 2000 era 53,7% e em 2010 passou para 47,7%, e um crescimento de pretos (de 6,2% para 7,6%) e pardos (de 38,5% para 43,1%). Sendo assim, a população preta e parda passou a ser considerada maioria no Brasil (50,7%).

Essa mudança na composição racial parece apontar também na direção de um novo perfil epidemiológico, com alteração na frequência e na distribuição das doenças entre os grupos raciais, além de gerar novas perspectivas de ação no sentido da redução das desigualdades sociais, principalmente entre os menos favorecidos: pretos e pardos. O Censo 2010 destacou ainda a persistência de diferenças na distribuição dos grupos raciais, com uma maior concentração de pretos e pardos no Norte e no Nordeste, e de brancos no Sudeste e Sul, o que acompanha os padrões históricos de ocupação do país e perpetuação nas desigualdades sociais.

Os grupos raciais diferem no que diz respeito às características epidemiológicas, demográficas, socioeconômicas, acesso a serviços, dentre outros. Dados do Censo 2010 indicam que os pretos e pardos estão em maior proporção no grupo de pessoas abaixo de 40 anos; já os brancos têm maior proporção entre os idosos – maiores de 65 anos e, principalmente, maiores de 80 anos de idade – o que provavelmente está ligado às diferenças de condições de vida e acesso a cuidados de saúde, bem como à participação desigual na distribuição de renda. Os rendimentos médios mensais dos brancos (R$ 1.538) e amarelos (R$ 1.574) se aproximam do dobro do valor relativo aos grupos de pretos (R$ 834), pardos (R$ 845) ou indígenas (R$ 735) (IBGE, 2010).

Na razão entre os rendimentos entre brancos/pretos e brancos/pardos, os maiores diferenciais estão nos municípios com mais de 500 mil habitantes. Entre as capitais, destacam-se: Salvador, com brancos ganhando 3,2 vezes mais do que pretos, Recife (3,0) e Belo Horizonte (2,9). Entre brancos e pardos, São Paulo (2,7) aparece no topo da lista, seguida por Porto Alegre (2,3). Em terceiro lugar estão empatadas Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, onde brancos têm um rendimento 2,3 vezes maior do que pardos (IBGE, 2010).

Com relação à associação entre raça e saúde, a realidade é muito concreta, corroborada por pesquisas em nível nacional que atestam desigualdades sofridas pelos negros em relação a desfechos de saúde. A prevalência de doenças crônicas auto-referidas foi significativamente maior nas pessoas negras quando comparadas às brancas (Barros et al, 2006). Indivíduos da raça negra também compõem o grupo predominante de casos de violência notificados pelos serviços públicos de emergência no Brasil. Enquanto em brancos a população atendida por violência foi de 26,2%, em negros este percentual foi de 69,7% (Mascarenhas et al, 2009). Cenário desfavorável para a raça negra também é observado para mortalidade materna cuja razão de mortalidade materna foi sete vezes maior quando comparadas às brancas (Morse et al, 2011; Ministério da Saúde de Brasil, 2010).

As mulheres não morrem igualmente por causa da gravidez. As causas da mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas (Ministério da Saúde de Brasil, 2010). Apesar da evidência da raça, outros fatores não podem ser desconsiderados na associação com desfechos em saúde e no planejamento de ações específicas: se são pobres ou ricas, ou se moram em cidade ou no campo. Diante deste cenário, Sueli Carneiro, Doutora em Filosofia da Educação pela USP e diretora do Geledés (Instituto da Mulher Negra) sugere que seja feita uma reflexão mais aprofundada sobre questões que envolvam a saúde dos negros, desde o melhor entendimento sobre doenças mais prevalentes até a averiguação sistemática da ocorrência de diferenças no atendimento de brancas e negras; considerando que há uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que enfatiza que as mulheres devem ser atendidas em todas as suas especificidades e ciclos de vida, resguardando-se as diferentes faixas etárias e distintos grupos sociais, tais como as mulheres negras.

Essas reflexões são extremamente pertinentes, principalmente quando é real a mudança na composição racial brasileira. Num país onde metade da população é preta e parda, ainda existem lacunas importantes na relação entre à raça (preta e parda) e saúde (acesso, prevenção e tratamento). Para Azevêdo (1987), o aspecto biológico mais fundamental das raças está naquilo que as une e não naquilo que as separa. Além disso, devemos encarar a nossa realidade, a composição racial, o novo perfil epidemiológico, e quebrar as barreiras geográficas e culturais, reduzindo cada vez mais as possíveis diferenças atribuídas às raças. Caso contrário, iremos perpetuar a discriminação, preconceito, marginalização, subjugação e as iniquidades sociais em saúde.

Referências Bibliográficas

Alves C, Fortuna CMM, Toralle MBP. A Aplicação e o Conceito de Raça em Saúde Pública: Definições, Controvérsias e Sugestões para Uniformizar sua Utilização nas Pesquisas Biomédicas e na Prática Clínica. Gazeta Médica da Bahia [periódico na internet]. 2005 Jan-Jun [acesso em 11 jan 2012];75(1):92-115. Disponível em: http://www.gmbahia.ufba.br/index.php/gmbahia/article/viewFile/355/344

Azevêdo ES. Raça. Conceito e Preconceito. São Paulo: Ática; 1987.

Barros MBA, Cesar CLG, Carandina L, Torre GD. Desigualdades sociais na prevalência de doenças crônicas no Brasil, PNAD-2003. Ciênc Saúde Colet [periódico na internet]. 2006 [acesso em 16 jan 2012];11(4):911-926. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232006000400014&lng=en&nrm=iso  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232006000400014

Carneiro S. Raça e saúde [Internet]. Direitos Humanos; c2005-2012. Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos; 2006 Nov 27 [acesso em 17 jan 2012]. Disponível em: http://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2253&Itemid=2

Cavalli-Sforza LL. Genes, povos e línguas. São Paulo: Companhia das Letras; 2003.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Síntese dos Indicadores de 2009. Rio de Janeiro: IBGE; 2010 [acesso em 4 jan 2011]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2009/pnad_sintese_2009.pdf

Mascarenhas MDM, Silva MMA, Malta DC, Moura L, Macário EM, Gawryszewski VP, Neto OLM. Perfil epidemiológico dos atendimentos de emergência por violência no Sistema de Serviços Sentinelas de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva) – Brasil, 2006. Epidemiol Serv Saúde [periódico na internet]. 2009 [acesso em 16 jan 2012];18(1):17-28. Disponível em: http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742009000100003&lng=pt. http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742009000100003  http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742009000100003

Morse ML, Fonseca SC, Barbosa MD, Calil MB, Eyer FP. Mortalidade materna no Brasil: o que mostra a produção científica nos últimos 30 anos? Cad Saúde Pública [periódico na internet]. 2011 Abr [acesso em 16 jan 2012];27(4):623-38. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2011000400002&lng=en  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011000400002

Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Política nacional de atenção integral à saúde da mulher: princípios e diretrizes. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2004. (Série B. Textos Básicos de Saúde). [acesso em 11 jan 2012]. Disponível em: http://conselho.saude.gov.br/ultimas_noticias/2007/politica_mulher.pdf

Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Saúde da mulher : um diálogo aberto e participativo. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2010  [acesso em 11 jan 2012]. (Série B. Textos Básicos de Saúde). Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/saude_da_mulher_um_dialogo_aberto_part.pdf

 

 

 

 

 

 

Citação Bibliográfica

Lamarca G, Vettore M. A nova composição racial brasileira segundo o Censo 2010 [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2012 Jan 21. Disponível em: http://cmdss2011.org/site/?p=8005&preview=true

Gabriela Lamarca e Mario Vettore

Mario Vianna Vettore. Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública.
Gabriela de A. Lamarca. Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutoranda em Epidemiologia em Saúde Pública.


2 Comentários em “ A nova composição racial brasileira segundo o Censo 2010 ”

  1. Renato de Oliveria
    16/04/13 - 11:04

    Realmente trata-se de um assunto muito difícil, muito porque este assunto não se refere a raça! E sim à epiderme! A raça predominate de seres bípedes que anda sobre o Brasil é raça HUMANA! Quando tratamos da coloração destes seres estamos tratando da cor da epiderme e somente isto! Não se trata da raça, como raça canina, raça felina e etc. mas somente da raça humana e ponto a qual possui diferentes colorações da epiderme. Então senhores, inclusive os autores deste site, por favor vamos ajudar a corrigir este equivoco que vem a anos no censo do IBGE causando indignações e constrangimentos altamente desnecessários a praticamente a todos os brasileiros, inclusive aos entrevistadores, que por muitas vezes tentam ser imparciais quando questionados com a pergunta “o que é raça?” mas também não sabem defini-lo coerentemente.

    Atenciosamente,

    Renato de Oliveira

  2. Felipe
    04/07/13 - 15:07

    Por que se minha mãe é branca e meu pai é negro eu tenho de ser exclusivamente afrodescendente? Afinal minha mãe é branca, e eu também puxei os genes dela, eu também sou euro descendente porque minha mãe é branca, é como se a raça negra fosse algo dominante na raça e na genética, isso acontece também com muitos outros pardos pelo Brasil, Pardo é uma raça própria, mistura de negro e branco, pardo não pode ser tratado exclusivamente como afrodescendente, pois ele possui também genes caucasianos, ta errado esse Censo, dizer que houve um crescimento da população negra, quando na verdade pardos também possuem genes europeus, assim então houve um crescimento da população eurodescendente, parece às vezes, que o governo quer que o país seja negro.

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