Crack e vulnerabilidade social: documentário mostra a condição de vida de usuários em Fortaleza

Por Jaqueline Pimentel

14/11/12 | 13:11

Documentário mostra a realidade dos usuários de crack em Fortaleza

Produzido com média de 75% de cocaína pura o crack provoca grande  compulsão e a dependência. Antes distante da realidade da maioria das cidades brasileiras passou a ser um problema em diversas regiões do país e atinge fortemente cidades como Fortaleza e Rio de Janeiro gerando mazelas sociais ligadas ao descontrole devido à dependência química e a violência gerada por ele com a busca desesperada dos usuários pela droga.

Exibido na semana comemorativa pelos 58 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), ocorrida entre os dias 10 e 13 de setembro, o filme Selva de Pedra- A Fortaleza Noiada retrata o cotidiano de usuários de crack em Fortaleza, mostrando problemas comuns na sociedade que levam à condição de abandono de boa parte dos usuários da droga. O diretor do filme e coordenador da Central Única das Favelas (CUFA) do Ceará, Preto Zezé esteve na ENSP e respondeu perguntas durante o debate sobre a questão da droga. O crack causa efeitos rápidos e extremamente agressivos e tem a “nóia”, como é chamada a sensação causada pela droga, como principal vilã da dependência.

As declarações dos usuários da “pedra”, nome dado ao crack pelos usuários, são impactantes. Muitos passam a viver nas ruas, voltados apenas para o vício, cometem crimes, abandonam seus empregos, famílias e residências e vivem em função da sensação provocada pela droga e principalmente da dependência gerada por ela.

O diretor do filme ressaltou a questão da saúde dos usuários que vivem maciçamente nas ruas, não se alimentam, e ficam vulneráveis à doenças sem procurar assistência. Ele defende que as questões envolvendo o crack não são problemas de polícia, mas sim de saúde e cobra planejamento no que se refere às ações das autoridades sobre a questão. “Os dependentes só vão procurar o sistema de saúde quando a tuberculose estoura ou a hepatite está gritante. Acho importante que se crie uma agenda sobre o crack para ontem”, destacou.

Trailer do Documenário Selva de Pedra A Fortaleza Noiada.

O filme traz a opinião de especialistas em saúde e autoridades como um juiz e um delegado. Todos apontam para questões chaves ligadas aos danos trazidos pelo crack. O delegado César Wagner conta em depoimento ao filme que o crack vem substituindo a maconha. “Hoje com certeza ele está na classe média, está na classe média alta e tem ocupado o lugar da maconha. Para se ter uma idéia, de cada 10 pontos de venda de drogas que nós debelamos, o crack está em pelo menos oito”, descreveu.

A terapeuta ocupacional Flávia Silva relata a questão da dependência em bebês. O uso da droga por gestantes pode trazer graves danos às crianças, incluindo o fato de nascerem com baixo peso e pode gerar ainda problemas psicomotores e de cognição. Ela relata uma característica comum nestes bebês. “Essa criança chora muito e mesmo depois de alimentada. Ela é irritada, porque está passando por uma crise de abstinência”, diz a especialista.

Para o psicólogo Osmar Diógenes, a abstinência agressiva da droga traz danos extremos. “É algo muito grande e forte. O impacto causado é tão grande que perdem tudo. Existe a possibilidade da recuperação, mas isto é em médio em longo prazo”, diz ele em depoimento no documentário. As declarações de usuários mostram quão graves são as implicações em torno da droga. “Cheguei a vender o leite do meu filho para fumar”, conta uma usuária. “Já vi tirarem até a porta de casa para vender”, diz outra pessoa em depoimento.

Zezé crê que o preconceito e a falta de planejamento em torno do problema agravam a situação daqueles que utilizam a droga. Ele cita a história de um policial do Batalhão de Choque local, como exemplo de situação que coloca os dependentes à margem da sociedade e agrava o problema. “Se um policial assume problema com drogas ele perde a gratificação, é tratado como louco e é marginalizado na corporação”, conta ele. Outro agravante trazido pelo uso descontrolado do crack é a prostituição.

Muitos dependentes utilizam o corpo como moeda de troca, o que ajuda a disseminar as DSTs.

Os depoimentos da jovem que virou moradora de rua e se prostitui para conseguir a droga, do policial do Batalhão de Choque que se tornou dependente do vício, do homem que perdeu os quatro filhos e a esposa, do rapaz que reclama de dores e desconforto, traçam um perfil da gravidade e do abandono no “universo do crack” em Fortaleza. O alerta para a necessidade de uma visão multidisciplinar que estude e assista mais e marginalize menos faz do documentário um importante instrumento para o conhecimento sobre a realidade daqueles que vivem na dependência desta pesada e danosa droga e suas famílias.

Os produtores destacam que o objetivo do filme é contribuir para o desenvolvimento de alternativas capazes de promover o enfrentamento eficaz do problema.

No dia 7 de novembro, na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, o Seminário sobre Intersetorialidade como princípio de combate ao crack promoveu um debate entre profissionais de saúde e pesquisadores.  No encontro, que será transformado em livro tratando sobre a problemática do crack,  foram debatidos  polêmicas, alternativas e políticas públicas relativos à questão.

 

Referência Bibliográfica

A Fortaleza Noiada [vídeo]. [acesso em 14 nov 2012]. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Dz0BGThxD58

 

Citação Bibliográfica

Pimentel J. Crack e vulnerabilidade social: documentário mostra a condição de vida de usuários em Fortaleza [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2012 Nov 14. Disponível em: http://dssbr.org/site/2012/11/crack-e-vulnerabilidade-social-documentario-exibido-na-semana-comemorativa-da-ensp-mostra-a-condicao-de-vida-de-usuarios-de-fortaleza/

Jaqueline Pimentel

Jaqueline Pimentel é jornalista e especialista em Gestão Empresarial

1 Comentário em “ Crack e vulnerabilidade social: documentário mostra a condição de vida de usuários em Fortaleza ”

  1. NÁRIA
    27/06/14 - 15:06

    Muito bons os depoimentos. Realidade de todo o Brasil. Nosso Estado não é diferente. Precisamos ajudá-los com mais vontade e persistência a libertá-los desses tormentos.

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