Série panorama das doenças negligenciadas: Nordestinos morrem mais em decorrência da esquistossomose

Por Maira Baracho

10/04/13 | 13:04

Controle do molusco vetor é uma das medidas de controle adotadas. Saneamento não é prioridade
(Imagem: Ascom/Fiocruz PE)

Considerada a segunda doença parasitária mais devastadora do mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a esquistossomose infectou mais de 63 mil brasileiros no ano de 2011, segundo dados do Ministério da Saúde. Popularmente conhecida como barriga d’água, a doença está diretamente relacionada às condições de vida das famílias e afeta principalmente populações socialmente vulneráveis, com baixo nível de escolaridade e renda. A esquistossomose compõe uma lista de doenças negligenciadas, que estão diretamente relacionadas à pobreza, assim como a Doença de Chagas e o Tracoma.

“A esquistossomose é uma doença que prevalece em condições de pobreza e contribui para a manutenção do quadro de desigualdade, já que acomete indivíduos em idade produtiva”, explica Rosa Castália, titular da Coordenação Geral de Hanseníase e Doenças em Eliminação do Ministério da Saúde. Por refletir a situação de vida da população, o enfrentamento à esquistossomose deve ser realizado não apenas no tratamento da doença, mas também compreender a importância da criação de novas circunstâncias sociais e estratégias preventivas. “Historicamente as medidas de controle só têm investido no tratamento da população e no controle do molusco vetor nas coleções hídricas, sem se preocupar em investimentos no saneamento básico para melhorar as condições ambientais que levam ao contagio humano”, acredita a pesquisadora da Fiocruz Pernambuco e coordenadora do Serviço de Referência para Esquistossomose no Ministério da Saúde, Constança Barbosa.

Rosa: "Secretarias de Saúde dos municípios de áreas endêmicas devem fazer a busca ativa dos casos (Imagem: Obustos/ Cremesp)

Rosa: “Secretarias de Saúde de municípios endêmicos devem fazer a busca  ativa de casos”
(Imagem: Obustos/ Cremesp)

Reflexo do panorama socioeconômico brasileiro, a região Nordeste apresenta os maiores números de infecções e óbitos por esquistossomose no país. No ano de 2011 a região registrou mais da metade dos casos da doença em território nacional, passando de 37 mil diagnósticos positivos da enfermidade, número que não passou dos 43 casos no Sul do país. Também é no Nordeste onde mais brasileiros morrem em função da doença. Segundo o Ministério da Saúde, das 524 mortes associadas à esquistossomose no Brasil em 2011, 347 foram no Nordeste. No Sul, apenas dois óbitos foram registrados, enquanto no Norte do país não houve nenhum óbito relacionado à doença.

Os estados nordestinos em situação mais preocupante são Alagoas, onde foram registrados mais de 12 mil casos da doença em 2011, Sergipe e Pernambuco, onde quase 9 mil pessoas foram diagnosticadas com esquistossomose. Pernambuco é o estado que mais registra óbitos relacionados à doença no país.  Enquanto 157 pessoas morreram no estado vítimas da doença em 2011, no Piauí esse número não passou de um caso.

Para construir um novo cenário da doença no país é preciso a interação de diversos setores do serviço público e o grande desafio na erradicação da doença no Brasil é conseguir canalizar as atenções para este problema. Além da indispensável atenção de saúde, é importante congregar as ações e viabilizar condições de vida mais adequadas, que favorecem a vivência de uma realidade mais equânime na saúde coletiva no Brasil. “É necessário que as secretarias municipais de Saúde dos municípios localizados em áreas endêmicas implementem a busca ativa dos casos com a realização de exames de fezes na população, tratamento dos casos positivos, identificação dos focos de transmissão onde existem caramujos infectados, além realização de atividades de educação em saúde para as populações de risco”, defende Rosa Castália.

Em 2012 a Fiocruz divulgou os primeiros resultados referentes à primeira vacina contra a esquistossomose do mundo. A pesquisa coordenada por Miriam Tendler, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) já foi testada em seres humanos homens e deve ser testada também nas mulheres ainda em 2013. “São Testes Fase 1 essencialmente relacionados com a segurança, que é o principal atributo de uma nova vacina. Em 2014 serão iniciados os testes Fase 2, que incluirá crianças de áreas onde há grande quantidade de pessoas infectadas. Isso é feito gradativamente. Primeiro se começa com um número pequeno, então vai se aumentando o número de pessoas incluídas no teste clínico, de modo que, nos próximos três a quatro anos, isso deve estar assegurado.  Estamos otimistas e acreditamos que daqui a três ou quatro anos a vacina já esteja disponível para a população”, explica a pesquisadora, que acredita que a vacina pode compor o calendário de vacinação dos países endêmicos.

Pesquisa que desenvolve primeira vacina contra a doença está sendo coordenada por por Miriam Tendler, da Fiocruz
(Imagem: Gutemberg Brito)

O trabalho realizado por Miriam Tendler é um marco para a pesquisa no Brasil, pois é a primeira vez que são realizados testes clínicos de fase 1 para uma vacina no país. Além de indicar sucesso no combate à esquistossomose, a vacina proposta pela pesquisadora pode ter desdobramentos positivos no enfrentamento a outras enfermidades. “A vacina tem potencial multivalente e já mostrou ser eficaz para a fasciolose (verminose que afeta o gado) e poderá, potencialmente, ser usada como base para o desenvolvimento de imunizantes para outras doenças humanas causadas por helmintos’, conclui a pesquisadora.

Referências Bibliográficas

Ministério da Saúde. Sistema de informação de agravos de notificação/ Sistema de informação da esquistossomose. Casos confirmados de Esquistossomose. Brasil, Grandes Regiões e Unidades Federadas. 1995 a 2011Brasília; 06 ago 2012 [acesso em 03 abr 2013]. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/serie_historica_esquistossomose_07_08_2012.pdf

Ministério da Saúde. Sistema de informação de agravos de notificação/ Sistema de informação da esquistossomose. Óbitos por Esquistossomose. Brasil, Grandes Regiões e Unidades Federadas. 1990-2011. Brasília; 2013 [acesso em 03 abr 2013]. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/obitos_esquistossomose_25_03_2013.pdf

Citação Bibliográfica

Baracho M. Série panorama das doenças negligenciadas: Nordestinos morrem mais em decorrência da esquistossomose [Internet]. Recife (PE): Portal DSS Nordeste; 2013 Abr 10. Disponível em: http://dssbr.org/site/2013/04/serie-panorama-das-doencas-negligenciadas-nordestinos-morrem-mais-em-decorrencia-da-esquistossomose/

Maira Baracho

Maira Baracho é jornalista

3 Comentários em “ Série panorama das doenças negligenciadas: Nordestinos morrem mais em decorrência da esquistossomose ”

  1. CONCEIÇÃO ACCETURI
    01/11/13 - 12:11

    DOENÇA NEGLIGENCIADAS MATAM MAIS DE UM MILHÃO DE PESSOAS NO MUNDO
    Brasileiros expostos ao lixo favorecem o crescimento de doenças tropicais infecciosas. É um absurdo que em pleno Século 21 o Brasil esteja entre os países com maior incidência de Tuberculose, junto com a Índia, Bangladesh, Nigéria, Paquistão, Congo e outros. Apesar de todo conhecimento científico resultante de estudos sobre a biologia e a genética dos agentes causadores destas doenças, não se conseguiu ainda encontrar tratamentos terapêuticos eficazes em escala para as vítimas. Tal fato resulta de políticas públicas insuficientes, pouco interesse mercadológico, pois não o público alvo são pacientes com baixo poder aquisitivo. As doenças negligenciadas causam um impacto social e econômico devastador sobre a humanidade, criando um círculo vicioso: a pobreza prolonga as doenças negligenciadas e seu impacto prolonga a pobreza. Portanto, intervenções são necessárias para quebrar esse ciclo. O grande desafio é a Pesquisa Translacional em Doenças Negligenciadas O interesse é transformar os resultados da Pesquisa Clínica em benefícios para a população, através da industrialização de medicamentos mais eficazes que possam ser utilizados pelos pacientes de forma segura e contínua. Profa. Dra. Conceição Accetturi – Médica Infectologista, Presidente da Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica (SBPPC) e Diretora Médica da Invitare Pesquisa Clínica.

  2. IVALDO PEREIRA
    22/09/15 - 20:09

    ASSUNTO MUITO PRODUTIVO PARA UMA BOA PALESTRA,E TAMBEM PARA ORIENTAÇÃO DAS PESSOAS MAL INFORMADAS SOBRE A DOENÇA,BOM SERIA TAMBÉM PANFLETOS, ENSINANDO COMO SE PREVENIR. QUERIA RECEBER MAIS E-MAILS SOBRE ESSA DOENÇA, PORQUE TRABALHO COM ELA, SOU AGENTE DE ENDEMIAS,NO TRATAMENTO DA ESQUISTOSSOMOSSE NA CIDADE DE GAMELEIRA-PE. MUITO OBRIGADO, ESPERO ALGUM RETORNO.

  3. Equipe Portal DSS NE
    22/09/15 - 22:09

    Caro sr. Ivaldo. Obrigada por entrar em contato. O senhor pode acompanhar informações atualizadas sobre a doença no site do Ministério da Saúde (www.saude.gov.br) e da Fundação Oswaldo Cruz (www.fiocruz.br) que sempre estão divulgando números e resultados de pesquisas, respectivamente. O senhor, através da Secretaria de Saúde do seu município, também pode fazer contato com o Serviço de Referência em Esquistossomose da Fiocruz Pernambuco. Informações a respeito do serviço você pode encontrar aqui http://bit.ly/1G1nh7p.

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