Série panorama das doenças negligenciadas: Nordeste é a segunda região em contaminações pela doença de Chagas

Por Maira Baracho

15/05/13 | 08:05

Prevenção e tratamento de pessoas  contaminadas são as estratégias de redução do número de casos  da doença, que atinge principalmente o coração

Prevenção e tratamento de pessoas contaminadas são as estratégias de redução do número de casos da doença, que atinge principalmente o coração

Considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma doença negligenciada, a doença de Chagas está relacionada às condições de vida do indivíduo. Endêmica na América Latina, afeta cerca de 12 milhões de pessoas. A infecção, causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, é transmitida ao homem através das fezes do “barbeiro” depositadas sobre a pele da pessoa, enquanto o inseto suga o sangue. Na década de 1980, o primeiro Inquérito Sorológico Nacional apontava 4,22% de reações sorológicas positivas no Brasil, número que em 2005 não passou de 0,14%. Em 2006 o País recebeu a certificação de interrupção da transmissão para Doença de Chagas pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), fruto da atuação brasileira no combate ao principal vetor e de ações de enfrentamento à enfermidade

O Nordeste segue o ritmo do Brasil na diminuição de casos da doença, mas é a segunda região com mais contaminações do País. Em 2011, dos 168 episódios registrados pelo Ministério da Saúde, 10 foram no Nordeste – sendo nove no Maranhão e um no Piauí –, enquanto no Sul não houve nenhum caso e no Sudeste foi registrada uma ocorrência da doença de Chagas. A região com situação mais crítica no País é o Norte, onde 148 casos foram apontados.  “Apesar da significativa redução da incidência da doença, novos casos foram relatados nos últimos anos por meio da transmissão oral, em especial nos estados do Maranhão e Piauí. Este fato nos coloca em alerta para realização de campanhas de prevenção, uma vez que esta via tem sido negligenciada pelas campanhas do governo”, pondera a pesquisadora e chefe do Serviço de Referência em Doença de Chagas da Fiocruz Pernambuco Yara Gomes.

Yara Gomes é chefe do Serviço de Referência em doença de Chagas da Fiocruz Pernambuco  (Imagem: Ascom/Fiocruz PE)

Para Yara Gomes, a falta de interesse de empresas farmacêuticas contribui para que a doença seja negligenciada
(Imagem: Ascom/Fiocruz PE)

Apesar das conquistas, o Ministério da Saúde identificou, em 2011, 168 novos casos de Chagas, que nas últimas décadas acompanhou o ritmo da globalização e deixou de ser uma doença  restrita às zonas rurais, sendo encontrada também em grandes centros urbanos, sobretudo nas áreas mais desassistidas. “A falta de interesse de empresas farmacêuticas para produzir drogas que afetam a população pobre, bem como o baixo investimento em pesquisa básica e ensaios clínicos, contribuem para que ela continue sendo uma doença esquecida, ou seja, negligenciada”, define Yara Gomes.

Para o gerente da Unidade Técnica de Vigilância das Doenças de Transmissão Vetorial do Ministério da Saúde, Renato Alves, as novas configurações da doença no Brasil implicam num novo olhar sob o problema. “Em virtude do atual perfil epidemiológico de novos casos e da transmissão por via oral, estes não estão somente associados à situação de desigualdades sociais. A associação mais direta com a pobreza decorre da transmissão vetorial domiciliar, na qual é necessária a existência de habitações precárias, que permitam o ingresso e colonização do barbeiro. Este tipo de transmissão foi controlada no país”, explica o gerente.

O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/Departamento de Informática do SUS/Ministério da Saúde) registrou, entre 1980 e 2007, 156.224 óbitos que tiveram como causa base a doença de Chagas. Estima-se ainda que existam cerca de 6 mil portadores da fase crônica da doença no Brasil, já apresentando agravos cardíacos ou digestivos, levando ao óbito cerca de 5 mil pessoas por ano. Diante destes números, é preciso desenvolver estratégias preventivas e assistência médica para reduzir o número de óbitos relacionados à doença de Chagas no Brasil, assim como a chance de contaminação.

Novas configurações da doença no Brasil implicam num novo olhar sob o problema, segundo Renato Alves, do Ministério da Saúde (Imagem: Luís Oliveira – Ascom/MS)

Para o professor adjunto de cardiologia da Universidade de Pernambuco (UPE) e coordenador do Ambulatório de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca (PROCAPE/UPE) Wilson de Oliveira, o estado de Pernambuco agrega iniciativas de sucesso na área e já começa a influenciar outras experiências. “Desde a criação do Ambulatório de Chagas em 1987, sentiu-se a necessidade de fomentar a implantação de órgão representativo como poder de luta. Foi nesse sentido que se criou a Associação dos Portadores de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca de Pernambuco, pioneira no mundo, sem fins lucrativos, sem vinculação político partidária, reconhecida como utilidade pública municipal e estadual e que conta com trabalho benévolo e altruísta de voluntários”, explica Oliveira, que garante que a entidade funciona como canal entre paciente e o poder público. “Graças à experiência exitosa, outras Associações seguiram o modelo de Pernambuco e mais recentemente, em outubro de 2010, reuniram-se em Olinda representantes de Associações de Portadores de vários países com a finalidade de criação da Federação Internacional de Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas (Findechagas). Este passou a ser um marco histórico de luta no combate à doença de Chagas no mundo, inclusive ficou estabelecido o dia 14 de abril como Dia Internacional de Luta no Combate à Doença de Chagas”, revela.

O médico Wilson de Oliveira acredita ainda que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve ter um olhar decisivo sobre a doença de Chagas, aproximando-se das demandas de cada localidade. “Particularmente no estado de Pernambuco sentimos a necessidade de maior resolutividade na rede de atenção básica, especialmente do interior do estado, evitando-se, dessa maneira, o deslocamento do paciente para o serviço de referência no Recife”, conta o cardiologista. Segundo ele, com a inauguração do PROCAPE, em 2006, sentiu-se a necessidade de expandir o serviço, com a criação da Casa do Portador de Doença de Chagas, onde fica o Ambulatório e Associação de Portadores da doença, serviço referência para o atendimento clínico em Pernambuco.

“O Ministério da Saúde disponibiliza gratuitamente aos estados o tratamento específico para todos os pacientes identificados com a doença ou portadores. Apesar da atual situação de controle de transmissão vetorial, existem ainda desafios relacionados ao diagnóstico e atenção dos portadores da infecção”, explica Renato Alves, gerente da Unidade Técnica de Vigilância das Doenças de Transmissão Vetorial. Alves garante, ainda, para este ano estão previstas novas ações. “Para 2013 estão planejadas capacitações relacionadas ao controle químico de triatomíneos em todo as regiões do país, capacitações para discutir aspectos da vigilância para o controle e prevenção da doença nos estados extra-amazônicos”, conclui.

Referências Bibliográficas

 

Chagas: descrição da doença [Internet]. Brasília (DF): Portal da Saúde. [acesso em 26 abr 2013]. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/profissional/visualizar_texto.cfm?idtxt=31114

Dias JCP, Coura JR. A doença de Chagas como problema do Continente Americano [Internet]. Rio de Janeiro: Fiocruz. [acesso em 26 abr 2013]. Disponível em: http://www.fiocruz.br/chagas/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm

 

Citação Bibliográfica

Baracho M. Série panorama das doenças negligenciadas: Nordeste é a segunda região em contaminações pela doença de Chagas [Internet]. Recife (PE): Portal DSS Nordeste; 2013 Maio 15. Disponível em: http://dssbr.org/site/2013/05/serie-panorama-das-doencas-negligenciadas-nordeste-e-a-segunda-regiao-em-contaminacoes-pela-doenca-de-chagas/

Maira Baracho

Maira Baracho é jornalista

3 Comentários em “ Série panorama das doenças negligenciadas: Nordeste é a segunda região em contaminações pela doença de Chagas ”

  1. Eduarda Cesse
    15/05/13 - 09:05

    Essa matéria mostra como um problema tão antigo e que conta na atualidade com métodos de prevenção, controle e tratamento, ainda se mantém no cenário epidemiologico da Região Norte e Nordeste. Seu vinculo estreitro com as condições socioeconômicas da populção explica esse cenário injustificável…

  2. vandir
    03/09/13 - 18:09

    pura balela, vai nos bancos de sangue, e pergunta qual a porcentagem de sangue recusado e publica pra ver. essas estatisticas estão todas furadas a realidade é assustadora

  3. Veruska
    20/11/13 - 10:11

    A prevalência no território brasileiro em bancos de sangue é baixa, no ano passado foi de 0,21% (amostrada a partir de mais de 2 milhões de doadores. As informações mais atuais podem ser obtidas pelo link http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/sangue_producao_hemoterapica.pdf

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