Qual o papel do capital social de vizinhança nas desigualdades em saúde em crianças e adolescentes?

Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore

04/06/13 | 11:06

As desigualdades na saúde continuam a ser um desafio para a saúde pública. As diferenças em saúde estão presentes em todos os estratos socioeconômicos, também conhecido como gradiente social da saúde, e se distribuem desigualmente entre os países mais ricos e os mais pobres, bem como entre unidades geográficas menores dentro das cidades, como entre distritos ou bairros. Assim, problemas de saúde e óbitos prematuros têm ocorrido de maneira desproporcional em bairros desfavorecidos. O capital social de vizinhança tem sido mencionado como um fator que pode influenciar a associação entre a privação social em nível de bairro e desfechos em saúde em crianças e adolescentes, tornando-se um tema potencialmente interessante para a política pública.

A possível influencia do meio ambiente físico sobre a saúde e o bem-estar das pessoas é um tema estudado há muito tempo. No entanto, no passado, o foco era voltado para os componentes estruturais (p.ex.: disponibilidade de serviços, como unidades de saúde; e infraestrutura, como rede de água, esgoto, e coleta de lixo) e às características sociodemográficas das áreas. Somente nos últimos anos as pesquisas passaram a considerar também os processos sociais, onde o termo “comunidade” inclui o significado individual e subjetivo que as pessoas atribuem ao lugar em que vivem e trabalham. A subjetividade implícita nos novos constructos usados nos estudos dos determinantes sociais da saúde fez surgir outros debates acadêmicos como a falta de precisão conceitual e operacional destes “novos” processos sociais.

 

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Afirmar que pessoas que possuem menor nível socioeconômico apresentam um risco mais elevado para doenças não é algo novo e nem atrai a atenção da sociedade civil nem de políticos. O efeito prejudicial das piores condições socioeconômicas sobre a saúde se estende para além das diferenças observadas entre os extremos socioeconômicos. Esse também se relaciona com a disponibilidade e oferta de recursos sociais percebidos pelos indivíduos, como redes sociais, apoio social e confiança. Segundo Michael Marmot, o padrão de relações sociais segue um gradiente social, ou seja, as pessoas que estão nas camadas sociais mais baixas geralmente têm menos redes sociais e frequentemente relatam menos apoio social. Além disso, no que diz respeito ao nível socioeconômico comunitário, pode-se dizer que esse está positivamente associado aos níveis de confiança e capital social de vizinhança.

Um recente estudo de revisão publicado por Veerle Vyncke, do Departamento da Saúde Pública (Ghent University) da Bélgica, e colaboradores de vários centros de pesquisa da Europa, investigou a influência das características socioeconômicas sobre a saúde de crianças e adolescentes, incluindo o papel da família e dos respectivos fatores socioeconômicos do bairro. Esse estudo fez parte do projeto Gradient (publicado como notícia previamente em nosso portal), coordenado pela Eurohealthnet, e teve como objetivo reduzir o déficit de conhecimento sobre quais ações são eficazes para nivelar o gradiente social em saúde entre crianças e adolescentes na Europa, e assim, influenciar formuladores de políticas em seus esforços para combater essas desigualdades.

Os autores identificaram vários estudos onde o capital social apresenta um efeito protetor sobre diversos desfechos em saúde em crianças e adolescentes, como a auto-avaliação da saúde, queixas físicas e psicológicas e comportamentos relacionados à saúde. Além disso, reafirmaram que as condições socioeconômicas do bairro e da família também são importantes para a saúde e bem-estar de crianças e adolescentes. Ou seja, por um lado são influencidas por acesso a bens e recursos, e por outro lado, há influência da psicopatologia parental ou das práticas parentais, isto é, uma relação familiar amorosa e envolvente que promova um desenvolvimento saudável, com participação em atividades, estímulo a novas aspirações e sonhos, é importante para que as crianças e adolescentes sintam que sua participação é significativa na sociedade.

No total, oito estudos foram revisados por Vyncke e colaboradores. Dois dos cinco estudos analisados confirmaram o papel mediador do capital social de vizinhança na associação entre privação social do bairro de residência e saúde e bem-estar em adolescentes. Dois estudos encontraram uma interação significativa entre fatores socioeconômicos do bairro e o capital social de vizinhança, o que indica que o capital social de vizinhança é especialmente benéfico para as crianças que residem em bairros carentes. No entanto, dois outros estudos não encontraram interação significativa entre o nível socioeconômico e o capital social de vizinhança.

Os autores concluíram que melhores condições socioeconômicas dos bairros estão relacionadas à maior quantidade e qualidade de recursos advindos da vizinhança, famílias mais solidárias e processos sociais comunitários mais ativos, o que resulta em uma melhor rede de influências para crianças e adolescentes. Por outro lado, é possível que a situação socioeconômica da família também possa afetar a relação entre a situação socioeconômica da vizinhança e a saúde de crianças e adolescentes. Os autores citam que, por exemplo, o Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é mais comum em situações onde a situação socioeconômica da família diverge da situação socioeconômica da vizinhança.

Esta revisão chama a atenção para a pequena proporção das pesquisas sobre capital social em crianças e adolescentes, e que dessas, poucas abordam o papel do capital social no combate às desigualdades sociais da saúde. O objetivo do projeto principal Gradient foi produzir orientações políticas que combatam o gradiente social na saúde das crianças e adolescentes em comunidades locais e, nesse sentido, a abordagem dos determinantes sociais em nível contextual foi extremamente relevante. Os autores sugerem que intervenções direcionadas para a melhoria do capital social em bairros com privação social e aqueles com baixos níveis socioeconômicos podem ajudar a melhorar o status de saúde das crianças, e podem desempenhar um papel importante na redução do gradiente de saúde.

Imagem da home: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/Gestor/area.cfm?id_area=384

Referências Bibliográficas

 

Gordon RA, Savage C, Lahey BB, Goodman SH, Jensen PS, Rubio-Stipec M, Hoven CW. Family and neighborhood income: additive and multiplicative associations with youths’ wellbeing. Soc Sci Res [periódico na internet]. 2003 [acesso em 06 mar 2013];32(2003):191–219. Disponível em: http://www.psychology.emory.edu/clinical/goodman/gordon2003.pdf

Kawachi I: Commentary: Social capital and health – making the connections one step at the time. Int J Epidemiol [periódico na internet]. 2006 Aug [acesso em 06 mar 2013];35(4):989-93. Disponível em: http://ije.oxfordjournals.org/content/35/4/989.full.pdf+html

Vyncke V, De Clercq B, Stevens V, Costongs C, Barbareschi G, Jónsson SH, Curvo SD, Kebza V, Currie C, Maes L. Does neighbourhood social capital aid in levelling the social gradient in the health and well-being of children and adolescents? A literature review. BMC Public Health [periódico na internet]. 2013 Jan 23 [acesso em 06 mar 2013];13:65. Disponível em: http://www.biomedcentral.com/content/pdf/1471-2458-13-65.pdf

 

 

 

 

Citação Bibliográfica

Lamarca G, Vettore M. Qual o papel do capital social de vizinhança nas desigualdades em saúde em crianças e adolescentes? [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2013 Jun 04. Disponível em: http://dssbr.org/site/?p=13194&preview=true

Gabriela Lamarca e Mario Vettore

Gabriela de A. Lamarca. Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública.
Mario Vianna Vettore. Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública.

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