O risco na mesa dos brasileiros

Por Jaqueline Pimentel

18/07/13 | 13:07

Gráfico do estudo mostra a porcentagem de frigoríficos inspecionados por estados, municípios e governo Federal

Gráfico do estudo mostra a porcentagem de frigoríficos inspecionados por estados, municípios e governo Federal

O Brasil é o país líder na exportação de carne do mundo. Hoje existem aqui 1.390 frigoríficos oficialmente registrados e inspecionados em atividade, sendo 762 são fiscalizados por órgãos municipais, 206 por federais e 422 por autoridades estaduais. Dados consolidados em 2011 pelo IBGE porém, concluem que a carne de aproximadamente 10,6 milhões de cabeças de gado bovino sem inspeção, se computados os abates oficiais não inspecionados e os clandestinos, cheguem a mesa do brasileiro, dentro do total de cada 30 milhões destinados ao mercado doméstico. Isto representa em média um terço do total da carne preparada para consumo no país. A denúncia está descrita no estudo Radiografia da Carne no Brasil, elaborado pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) Amigos da Terra, que foi divulgado em abril. O documento revelou as condições nas quais funcionam a maioria dos abatedouros brasileiros e fez um importante alerta sobre a qualidade da carne que consumimos apontando falhas grosseiras e a negligência de autoridades e responsáveis por abatedouros.

Dados da Radiografia da Carne no Brasil mostram a evolução do abate bovino

Dados da Radiografia da Carne no Brasil mostram a evolução do abate bovino

A amostra de visitas do estudo, realizadas entre setembro de 2012 e fevereirode 2013, atingiu aproximadamente um quarto dos estabelecimentos com inspeção estadual e municipal, chegando ao total de 28, distribuídos em oito estados, que juntos possuem 61% do rebanho bovino brasileiro. Os estados onde se encontram os estabelecimentos visitados são: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul. Segundo os apontamentos destacados no documento a amplitude da distribuição geográfica da amostra pesquisada leva a conclusão de que a inconformidade no segmento da produção de carne é de aproximadamente 80%, sem grandes variações entre as regiões do país.

“Choques elétricos empurram o boi pelo estreito corredor, enquanto um trabalhador – sem camisa, luvas ou equipamento de proteção – segura uma marreta e aguarda a hora de desferir o golpe. Na sala de abate, sob as patas do animal, poças de sangue e restos de outros bovinos e suínos. Quando o martelo atinge a cabeça do gado, ele desaba no chão imundo. Numa bacia ao lado – de onde transborda um líquido de cor avermelhada, formado por uma mistura de água e sangue – é enxaguado o facão”. O relato que abre o estudo choca e mostra em poucas linhas três problemas corriqueiros no que diz respeito à preparação de carne para comercialização no país. As irregularidades começam já no início da linha de produção. Além da falta de segurança sobre a saúde dos animais, já que nem sempre o abate é acompanhado por um veterinário para atestar as condições de saúde, foi constatado que, em muitos casos, o procedimento é feito de forma cruel, sem higiene ou mesmo medidas de segurança adequadas e equipamentos para os trabalhadores que executam suas tarefas nestes locais. Em muitos municípios brasileiros o mesmo veterinário é responsável pela fiscalização de diferentes matadouros, que ficam distantes uns dos outros e realizam abates simultaneamente, o que, por razões óbvias, impede a conferência de toda a carne produzida. As consequências vindas do consumo de alimentos colocados no mercado sem o devido controle sanitário, são inúmeras. Entre elas estão o contágio por teníase, cisticercose, toxoplasmose e tuberculose. Outra inconformidade que traz risco para a saúde do consumidor é a má conservação da carne, que nem sempre é acondicionada de forma correta. Nestes casos o consumo pode trazer problemas gerados pela contaminação do alimento por salmonelas e bactérias. Além disso, o descarte inadequado dos restos de animais nos frigoríficos gera danos ao meio ambiente, o que inclui a contaminação do lençol freático pelo sangue.

Análise feita pela pesquisa chegou ao total de abates não inspecionados

Análise feita pela pesquisa chegou ao total de abates não inspecionados

Segundo dados do IBGE de 2012, são abatidas por ano 31 milhões de cabeça de gado para um rebanho de 205 milhões. A informação se refere ao abate inspecionado. A Associação Brasileira de Frigoríficos estima porém, que sejam abatidas 42 milhões de cabeças por ano, se contabilizados os abates clandestinos e não inspecionados. Mas os números comprovam que Os abatedouros irregulares perderiam espaço se não ocorresse o sub aproveitamento da capacidade produtiva dos frigoríficos, como revelado pela Radiografia da Carne no Brasil. “Frente a um abate de 21 milhões de cabeças nos frigoríficos com inspeção federal, temos uma capacidade instalada estimada pelas empresas do setor em pelo menos 52 milhões de cabeças (2012)”, cita o documento. Contudo, o Ministério da Agricultura estima que o setor de carne apresentará intenso crescimento nos próximos anos. Diante de um mercado em ascensão com perspectiva de crescimento das exportações a médio e longo prazo é fundamental fiscalizar a produção e as condições de trabalho daqueles que atuam neste segmento.

Em meio a tantas irregularidades e riscos aos quais são expostos os consumidores e trabalhadores neste setor houve iniciativas que tentaram amenizar os danos de um mercado sem fiscalização e segurança. O Ministério Público lançou o Pacto da Carne Legal, objetivando conscientizar a população sobre a importância de conhecer a origem da matéria prima e evitar comprar o produto vinculado ao desmatamento, à grilagem de terras ou ao trabalho escravo. O problema envolvendo o mercado da carne no Brasil, porém, é mais amplo, e torna necessárias medidas de fiscalização e controle eficazes que viabilizem o rastreamento da procedência dos produtos e a certificação de qualidade pelas autoridades sanitárias.

A OSCIP Amigos da Terra exige no documento o comprometimento do Poder Público com a garantia de que haja um padrão sanitário único e de qualidade na preparação da carne para consumo, com práticas de transparência ao consumidor e regras de produção que viabilizem a rastreabilidade da origem e qualidade do produto. Outro ponto em destaque no texto é a responsabilidade com a credibilidade do setor que, se adequado a padrões de qualidade e vigilância sanitária e submetido à fiscalização correta, poderia gerar empregos descentes e fornecer um bom produto para consumo. Resta as autoridades tomar o estudo como mais um instrumento de auxílio quanto a estruturação de medidas que tornem melhor e mais confiável o mercado produtor de carne no Brasil, dê dignidade àqueles que nele trabalham e proporcione confiabilidade e segurança ao consumidor.

Referência Bibliográfica

Radiografia da Carne no Brasil. São Paulo: Amigos da Terra – Amazônia Brasileira; 2013. [acesso em 10 jul 2013]. Disponível em: http://amazonia.org.br/wp-content/uploads/2013/04/cartilha_radiografia.pdf

Citação Bibliográfica

Pimentel J. O risco na mesa dos brasileiros [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2013 Jul 18. Disponível em: http://dssbr.org/site/2013/07/o-risco-na-mesa-dos-brasileiros/

Jaqueline Pimentel

Jaqueline Pimentel é jornalista.

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