Série panorama das doenças negligenciadas: Número de vítimas cai, mas dengue segue fazendo vítimas no Nordeste

Por Maira Baracho

19/06/14 | 11:06

Secretaria de Saúde do Recife utiliza estratégias combinadas para controlar o mosquito  transmissor da doença (Foto: Luciano Ferreira/PCR)

Secretaria de Saúde do Recife utiliza estratégias combinadas para controlar o mosquito transmissor da doença (Foto: Luciano Ferreira/PCR)

Conhecida e acompanhada pelo sistema público de saúde há, pelo menos, duas décadas, a dengue não exige métodos complexos para ser evitada e pequenas atenções podem impedir a reprodução e proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. Apesar disso, em 2013, no Nordeste, a dengue foi responsável por 40 mortes, cinco a menos que em 2012 e 20 a menos que em 2011. Apesar da queda de óbitos, o Nordeste é a terceira região com maior incidência de novos casos no país, onde a dengue ainda é desafio para a saúde pública.

Também no ano passado 1.470.487 novos casos foram registrados no país, 152.466 deles no Nordeste. Na região, a Bahia é campeã no número de casos. Dos 62.147 novos episódios naquele estado, sete resultaram em óbito. No Ceará, das 31.266 pessoas que adoeceram em 2013, 13 morreram em função da dengue.

A entomologista e pesquisadora da Fiocruz Pernambuco Leda Régis explica que o ciclo de vida muito rápido do mosquito e sua alta fecundidade resultam numa impressionante plasticidade populacional, fazendo com o que, mesmo após atingida por ações de controle, uma população de mosquitos consiga se refazer rapidamente. Para ela, a vacina é a alternativa mais acertada de combate aos vírus. “Mas como não há ainda uma vacina contra a dengue, tentar diminuir a quantidade de mosquitos e reduzir a exposição das pessoas às suas picadas é o que pode e deve ser feito continuamente, somando esforços de governos, de entidades com responsabilidade social e de cada pessoa individualmente. Entretanto, o insucesso dos programas em reduzir a expansão da dengue por meio do controle do veto, mostra a necessidade de estudos para dar suporte a novas estratégias de vigilância e de controle do Aedes”, defende.

Para o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, o panorama se deve ao fato da doença estar relacionada não apenas com o setor saúde, mas, a um conjunto de determinantes externos que, para ele, não se modificaram com a velocidade necessária nas últimas décadas. “O processo de urbanização rápida que ocorreu em quase todos os países em desenvolvimento produziu cidades sem a necessária infraestrutura urbana. Por isso, mais de 150 países apresentam infestação pelo Aedes aegypti e sofrem epidemias de dengue, segundo dados da OMS. Alguns desses fatores tornam seu controle muito difícil, como por exemplo, o fato do mosquito transmissor se proliferar principalmente em áreas urbanas, ambientes domésticos e em depósitos artificias (lixo, depósitos de armazenamento de água, etc,), e a ausência de uma vacina”, explicou Barbosa. Para ele, estas características obrigam a adoção de medidas além do setor saúde que vão desde a melhoria da infraestrutura urbana das cidades (coleta regular de lixo, abastecimento adequado e regular de água) até uma mudança de comportamento da população. “Esse quadro nos mostra que é preciso trabalhar de maneira continuada e articulada não apenas com os gestores, mas com toda a sociedade no setor saúde para reduzir os riscos de epidemias de dengue”, complementou.

Estado com situação mais crítica no cenário nordestino, a Bahia já apresenta números preliminares para 2014 e revela um decréscimo de 86,7% no número de casos em relação aos primeiros meses do ano anterior. De acordo com João Emanuel Araújo, coordenador do programa de dengue no estado, 10 municípios apresentam a situação mais complicada e são responsáveis por 58% do número de casos baianos. Apesar do contexto social também estar envolvido com a incidência na doença – que também se relaciona com tipo de moradia, padrão de crescimento urbano e condições gerais de vida -, ainda é no setor Saúde que está a maior responsabilidade no combate a novos casos. “O estado tem investido em metodologias de controle da doença, com um grupo técnico trabalhando nesse sentido, automatizando a produção de informação, incorporação de técnicas novas com aumento da precisão e qualidade das ações de controle. Queremos fortalecer municípios para que tenham condições de combater a dengue”, explicou João Emanuel Araújo, que comentou, ainda, que a expectativa é que em 2014 sejam registrados 20 mil novos casos da doença.

O gerente de Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde do Recife, Jurandir Almeida, defende que a informação ainda é o principal desafio das campanhas de prevenção à dengue. Ele explica que as estratégias precisam ser mais eficazes no sentido de envolverem a sociedade. “Ainda temos um modelo muito assistencialista. A responsabilidade da educação é muito grande nesse processo. As pessoas precisam estar atentas não só quando acontecem epidemias ou óbitos. Identificamos que em mais de 80% dos focos os recipientes são em baldes e tonéis”, alerta o gerente. Almeida avalia que, na capital pernambucana, o racionamento de água ainda é um grande problema e que se relaciona com os novos casos da doença. “Achávamos que, com o fim do racionamento, as pessoas que juntavam água iriam parar e isso teria um impacto positivo no panorama da doença, mas foi o contrário. As pessoas não confiam que vai ter água na torneira e seguem acumulando. Temos uma rede de distribuição falha, os canos estouram e o racionamento que era certo, com dias marcados, de repente não é mais. As pessoas continuam juntando água e por muito mais tempo”, detalha.

Na prática, o Recife utiliza diferentes métodos para combater os mosquitos, com visitas domiciliares dos agentes de saúde ambiental, uso de larvicida biológico, de inseticida gasoso e distribuição de capas protetoras para recipientes e monitoramento de áreas com maior incidência de casos. A Secretária de Saúde local utiliza, ainda, o método de monitoramento desenvolvido pela Fiocruz Pernambuco que utiliza ovitrampas em locais de grande proliferação ou potenciais focos, como cemitérios e estádios de futebol. A estratégia consiste numa espécie de armadilha, que favorece o depósito dos ovos e possibilita o monitoramento da quantidade de ovos e o mapeamento das áreas mais infestadas e cuja situação exige maior intervenção.

Secretário Jarbas Barbosa garante que a descoberta do vírus da dengue tipo 5 ainda não é um problema para o Brasil (Foto: Divulgação SVS-MS)

Secretário Jarbas Barbosa garante que a descoberta do vírus da dengue tipo 5 ainda não é um problema para o Brasil (Foto: Divulgação SVS-MS)

Para ampliar a assistência de saúde, o Ministério da Saúde está acompanhando duas possíveis vacinas que estão sendo testadas no Brasil e prometem uma nova situação epidemiológica da doença no país. “A vacina brasileira contra a dengue, que já está em fase de testes em humanos, é desenvolvida pelo Instituto Butantan, com o apoio do Ministério da Saúde. A expectativa é que o imunobiológico seja administrado em uma única dose e combata os quatro sorotipos da doença (1, 2, 3 e 4). A técnica utiliza o chamado vírus atenuado, isto é, o próprio vírus da dengue modificado, de maneira que produz anticorpos na população, mas não desenvolve a doença. Além do Butantan, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Biomanguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também está pesquisando uma nova vacina contra a dengue com apoio do Ministério da Saúde. Os estudos são realizados desde 2009, em parceria com o laboratório privado GSK. A previsão é que a vacina seja concluída no prazo de cinco anos”, explicou Jarbas Barbosa. Sobre um possível novo tipo do vírus, o tipo 5, o secretário garante que não é um problema para o Brasil. “Ainda não foi identificada uma nova linhagem de vírus em um ciclo selvagem de transmissão. Não se tem evidências que possa ocorrer um ciclo entre homens. Assim, não se considera que haja um novo sorotipo capaz de produzir impacto na saúde pública”, garantiu.

MÉTODO DE CONTROLE – A pesquisadora da Fiocruz Pernambuco Leda Régis coordenou uma pesquisa em parceria com outras instituições que desenvolveu um sistema para monitoramento e controle do mosquito da dengue, o SMCP-Aedes. O estudo foi realizado em quatro municípios pernambucanose testado em diferentes situações urbanas. O sistema, operacionalmente simples, é muito eficiente para revelar a localização e a abundância do vetor no ambiente através de mapas mensais de fácil leitura pelas equipes de trabalho e campo. Ele permite, ainda, caracterizar a infestação dos lugares produzindo informações sobre os locais e os períodos com maior concentração do mosquito, fundamentais para planejar e aplicar ações de controle.

A aplicação do sistema revelou populações de Aedes estabelecidas em praticamente todos os imóveis em todos os locais monitorados em Recife, Ipojuca, Santa Cruz do Capibaribe e Fernando de Noronha, mas indicando muito claramente diferenças quantitativas de intensidade de infestação.  Estas ferramentas permitiram conduzir e avaliar o impacto de intervenções de controle integrado, com participação social, que resultaram em 90% de redução da população de Aedes em Santa Cruz do Capibaribe, de 2009 a 2011, um dos raros registros de redução significativa deste vetor documentada na literatura científica.

Os resultados mais recentes do estudo indicaram, em Fernando de Noronha, uma forte associação entre a quantidade de ovos produzidos pelo mosquito e o volume de chuvas nos dois últimos meses. “Isto mostra que a aplicação de um sistema sensível de monitoramento permite produzir ferramentas capazes de predizer o crescimento da população do vetor, associado ao aumento do risco de transmissão viral”, ressaltou Leda Régis. Para a pesquisadora, o conjunto de resultados do trabalho confirma a vantagem da utilização de armadilhas simples, associadas à tecnologias de informação, para a vigilância e também como ferramenta de controle do Aedes aegypti.

 

Referências Bibliográficas

Cruz F. Vacina brasileira contra dengue começa a ser testada no país em outubro [Internet]. Brasília (DF): Agência Brasil; 2013 Set 26 [acesso em 09 jun 204]. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-09-26/vacina-brasileira-contra-dengue-comeca-ser-testada-no-pais-em-outubro

Ministério da Saúde. Sistema de informação de agravos de notificação/ Sistema de informação da dengue. Óbitos por Dengue. Brasil, Grandes Regiões e Unidades Federadas 1990 a 2013. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2013 [acesso em 09 jun 2014]. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/marco/27/obitos-dengu-ate-2013.pdf

Ministério da Saúde. Sistema de informação de agravos de notificação/ Sistema de informação da dengue. Casos Graves de Dengue. Brasil, Grandes Regiões e Unidades Federadas 1990 a 2013. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2013 [acesso em 09 jun 2014]. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/marco/21/Graves-at—2013-.pdf

 

Citação Bibliográfica

Baracho M. Série panorama das doenças negligenciadas: Número de vítimas cai, mas dengue segue fazendo vítimas no Nordeste [Internet]. Recife: Portal DSS Nordeste; 2014 Jun 19. Disponível em: http://dssbr.org/site/2014/06/serie-panorama-das-doencas-negligenciadas-numero-de-vitimas-cai-mas-dengue-segue-fazendo-vitimas-no-nordeste/

Maira Baracho

Maira Baracho é jornalista

Deixe um comentário