O modelo britânico unificado de bem-estar no local de trabalho

Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore - correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra

07/11/14 | 02:11

Condições de trabalho equânimes são fundamentais para a saúde dos trabalhadores. Estes, por sua vez, representam uma parcela significativa do componente econômico e produtivo de um país. Boas condições de trabalho, além de serem a maneira mais justa e coerente de incentivar a produção e a satisfação em empresas públicas e privadas, se convertem em menor absentismo por doença, menor rotatividade de pessoal e maior produtividade, ou seja, trabalhadores mais produtivos e seguros. Segundo a OMS, a segurança, a saúde e o bem-estar dos trabalhadores são questões que se estendem para além dos indivíduos e suas famílias, englobam as comunidades e as economias nacionais e regionais.

No Brasil é crescente o interesse de muitas organizações no desenvolvimento de estratégias para valorizar seu quadro de funcionários, estabelecendo as condições necessárias para que tenham um bom desempenho, satisfação e bem-estar. Não é raro ver ações e práticas organizacionais e gerenciais sendo recomendadas para esse grupo (Sant’anna et al., 2012).

Apesar de existirem várias normas publicadas pelo Ministério do Trabalho e do Emprego do Brasil ainda não há nenhum documento unificado de recomendações unificadas que esteja relacionado ao bem-estar no trabalho e que possa ser usado pelas organizações. Temos disponível até então a legislação para grupos específicos de trabalhadores. Informações sobre segurança no trabalho, produtividade, competitividade, sustentabilidade das empresas, além de orientações sobre adaptação de um modelo de ambientes saudáveis ao contexto e necessidades locais, são apresentadas em uma publicação elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2010), e traduzida pelo SESI (Serviço Social da Indústria), em consonância com o Plano Global de Ação. No entanto, não há sistematização de seu uso, muito menos unificação na aplicabilidade entre as organizações.

Enquanto ainda temos muito a progredir na área da saúde e bem-estar do trabalhador, no início do mês de junho desse ano foi lançada no Reino Unido a “Carta de Bem-estar no Trabalho”. Nesta carta foram revisitadas e reforçadas as recomendações relacionadas aos ambientes de trabalho saudáveis ​​e a necessidade de todas as organizações trabalharem, por meio de recomendações únicas, para melhorar a saúde e o bem-estar de seus funcionários.

Historicamente, têm-se usado diversos programas de bem-estar no trabalho em todo Reino Unido, que são mesclados e aplicados cada um com suas próprias normas e requisitos de informação. Em consequência desta prática, as grandes organizações têm recebido diferentes conselhos vindos de diversas fontes, além de não terem uma coordenação nacional. Para outras empresas, o maior desafio têm sido a falta de apoio local, pois algumas diretrizes (cartas) de bem-estar no local de trabalho só estavam disponíveis para determinadas localidades.

Este primeiro conjunto de diretrizes britânicas para o bem-estar no local de trabalho foi criado pela equipe do Conselho Municipal de Liverpool, com base na sua própria carta de bem-estar no trabalho complementada por outros documentos oriundos de todo o país. Devido à sua estrutura clara, a Carta facilitará a identificação de lacunas nas áreas de saúde, segurança e bem-estar dos funcionários de uma organização, sendo possível embasar o desenvolvimento de estratégias e planos de ação. Além disso, como o processo de elaboração do documento foi robusto e baseado em evidências, o bem-estar no local de trabalho (agora) está sendo amplamente reconhecido como o padrão de negócios em toda a Inglaterra. Como é semelhante a uma certificação, ajuda a fortalecer a marca e reputação da organização, suporte em vendas e atividades de marketing.

Segundo o Conselho de Liverpool, a Carta tem como base três elementos-chave: liderança, cultura e comunicação. Para eles, a inter-relação dessa tríade é responsável por originar o bem-estar no local de trabalho. A liderança diz respeito, principalmente, ao entendimento e a crença do valor de um local de trabalho saudável, onde as prioridades são identificadas, as barreiras são removidas e onde o apoio é provido. Envolve também uma cultura de saúde e bem-estar dentro das organizações, garantindo um ambiente de trabalho seguro e saudável, incluindo o apoio aos funcionários com doenças ou incapacidades/deficiências, além de promover um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. No entanto, nada disso se inter-relaciona sem uma efetiva comunicação, já que todos os funcionários devem se sentir incluídos e envolvidos.

As organizações que utilizarem essa Carta poderão ser avaliadas em três níveis/quesitos: compromisso, realização e excelência – cada um contendo diferentes padrões a serem alcançados. Todos os três níveis consideram diferentes temas relacionados ao bem-estar, tais como saúde mental, atividade física, tabagismo, álcool e abuso de substâncias, alimentação saudável, gestão de ausência e de saúde, e segurança.

A aplicação das recomendações da Carta de Bem-estar no Trabalho permitirá aos empregadores do Reino Unido aferirem o seu desempenho, não apenas dentro de sua localidade, mas poderão comparar seus resultados com os obtidos em todo o país. As empresas irão ter uma ideia melhor em relação ao que estão fazendo para melhorar a saúde e bem-estar dos funcionários, e poderão buscar inspiração e conselhos de outras organizações similares para melhorarem o seu desempenho.

Experiências positivas em relação à saúde e o bem-estar do trabalhador são fenômenos essenciais para o funcionamento adequado e competitivo de uma organização. Além disso, o envolvimento da empresa com a comunidade pode fazer uma grande diferença tanto para os setores mais vulneráveis da força de trabalho das organizações como para os moradores da comunidade. No Brasil, onde o acesso aos serviços de saúde pública ainda precisa de melhorias, e a legislação trabalhista e ambiental ainda são fracas ou inexistentes, a ‘preocupação’ das empresas com o bem-estar de seus funcionários somada ao maior comprometimento da organização com a comunidade, podem fazer uma grande diferença para saúde do trabalhador, para sua qualidade de vida e de sua família.

 

Referências Bibliográficas

 

Ambientes de trabalho saudáveis: um modelo para ação para empregadores, trabalhadores, formuladores de políticas e profissionais. Genebra: OMS/ SESI, Tradução; 2010. [acesso em 31 out 2014]. Disponível em: http://www.who.int/occupational_health/ambientes_de_trabalho.pdf

Portal do Trabalho e Emprego. [acesso em 31 out 2014]. Disponível em: http://portal.mte.gov.br/geral/publicacoes/

Sant’anna LL, Paschoal T, Gosendo EEM. Bem-estar no trabalho: relações com estilos de liderança e suporte para ascensão, promoção e salários. Rev Adm Contemp [periódico na internet]. 2012 [acesso em 31 out 2014];16(5):744-764. Disponível em:  http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-65552012000500007&script=sci_arttext

The Workplace Wellbeing Charter. [acesso em 31 out 2014]. Disponível em: http://www.wellbeingcharter.org.uk/media/PDF/WWC_Self_Assessment_Standards_A4_Booklet_Liverpool_2_WEB.PDF

Vickers-Byrne T. Towards a national model of workplace wellbeing. London: Blog Public Health Matters; 2014 June 02. [acesso em 31 out 2014]. Disponível em: https://publichealthmatters.blog.gov.uk/2014/06/02/towards-a-national-model-of-workplace-wellbeing/

Citação Bibliográfica

Lamarca G, Vettore M. O modelo britânico unificado de bem-estar no local de trabalho [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2014 Nov 07. Disponível em: http://dssbr.org/site/?p=19461&preview=true

Gabriela Lamarca e Mario Vettore - correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra

Gabriela de A. Lamarca. Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública.
Mario Vianna Vettore. Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública.

3 Comentários em “ O modelo britânico unificado de bem-estar no local de trabalho ”

  1. lamarques
    10/03/16 - 16:03

    Parabéns. Ótima matéria.

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