Atlas reúne indicadores de água e saneamento

Por Emídia Felipe

27/10/15 | 08:10

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Mapa reúne informações de todo o país

Analisar a qualidade da água para consumo humano e suas implicações na saúde da população é um trabalho abrangente, não só por esse bem natural ser um item de primeira necessidade, mas também porque as dimensões do País impõem um grande volume de dados a serem compilados. Desde 2007, a equipe do Atlas ÁguaBrasil, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), absorveu esse desafio, alimentando e disponibilizando – de modo aberto e gratuito – um banco de dados com indicadores de municípios de todos os Estados do País. São tabelas com números que têm se transformado em bases para estudos, debates e ações que visam à melhoria da qualidade de vida de comunidades.

Financiado com recursos do Ministério da Saúde (MS), o Atlas ÁguaBrasil reúne uma integração de dados inédita no País. Através de um sistema digital desenvolvido e mantido pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) da Fiocruz, o usuário consegue filtrar as informações em diversos níveis – nacional, estadual e municipal – e construir tabelas e gráficos com os dados, incluindo séries históricas. As bases consultadas são instituições como IBGE, MS e Agência Nacional de Águas (ANA), o que permite acesso a resultados detalhados sobre diversos aspectos, como incidência de doenças, características do saneamento básico e tratamento da água. “Nós reunimos esses dados e os disponibilizamos em um único local”, resume Renata Gracie, integrante da equipe de pesquisadores do Atlas, cujas atividades são realizadas principalmente a partir do Rio de Janeiro.

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Com essa reunião e organização dos indicadores, um dos principais objetivos do projeto é possibilitar o uso dessas informações por pesquisadores, gestores públicos e pela população. “Sabemos, às vezes por jornais e às vezes por correio eletrônico, que alguns cidadãos têm usado dados do Atlas para mobilizar as comunidades, lutar por melhores condições de saneamento e saúde; e algumas vezes para abrir processos junto ao Ministério Público. Isso já aconteceu em Belford Roxo (RJ) e em Ribeirão Preto (SP). Mas, como o site é público e sem restrições, não temos como avaliar como estes dados têm repercutido na sociedade”, relata o coordenador do projeto, Christovam Barcellos.

DOENÇAS – Dentre os resultados abarcados no Atlas, há os que se referem às doenças. De acordo com os pesquisadores, os agravos que tem maior destaque são dengue, hepatite A, leptospirose e esquistossomose. O acompanhamento dos casos registrados permite, por exemplo, que se trace uma rota desses males pelo Brasil. “Vemos a dengue se espalhando em direção à Região Centro-Oeste e ao Norte do País, mas mantendo sua incidência elevada em muitos municípios do Sudeste e do Nordeste, mostrando uma concentração no litoral e no interior de Minas Gerais e São Paulo, próximo à fronteira com a Região Centro-Oeste”, analisa Renata Gracie. Ela complementa que é possível identificar também uma cobertura de abastecimento por rede geral (por companhias de distribuição de água) muito grande. “Mas esta mesma distribuição não ocorre com relação ao tratamento da água distribuída e com relação ao esgotamento”, pondera a pesquisadora.

 

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As particularidades dos determinantes sociais da saúde em cada região também se refletem nos resultados, como ocorre com os estados nordestinos. “No caso do Nordeste, temos uma preocupação maior com as doenças relacionadas à água e à seca”, explica Barcellos. Além da dengue, já citada por Renata Gracie, ele pontua que a região é afetada principalmente por esquistossomose, cólera e diarreias. No quadro abaixo, o pesquisador faz observações sobre cada uma delas. Ele destaca, contudo, que a mineração desses dados é mais complexa. “Como vários destes casos não são registrados nos sistemas de informação do SUS, procuramos complementar esses dados com notícias de jornais e buscas em blogs”, esclarece.

DESAFIOS – Os resultados impulsionam a equipe a lidar com o desafio de manter a plataforma. Os pesquisadores relatam que as limitações – como diferenças nos métodos de coleta por parte das secretarias municipais de saúde – podem afetar desde a disponibilidade de indicadores quanto o tempo dispendido para a reunião de informações no projeto. Um exemplo é quando há questionamento dos dados por parte desses próprios órgãos, muitas vezes sobre indicadores reunidos por seus profissionais. Ao lado disso, está a disputa por recursos para manter a equipe. Neste caso, Renata Gracie acrescenta uma orientação a quem pretende montar iniciativas semelhantes: “É preciso conseguir financiamentos mais longos e estabelecer convênios em que os membros da equipe não sejam financiados por regime de projetos, mas sim que sejam custeados por programas”. Ela argumenta que, desta forma, a entrada de verba sofre menos com a instabilidade, tendo em vista que enquanto recursos financeiros geridos por projetos em geral são mais curtos, do que por programas.

A equipe do AtlasBrasil agora tem como uma das metas aumentar o nível de detalhamento das análises especiais tentando chegar em uma escala intramunicipal. “Entendemos que, em muitos casos, as secretarias municipais têm uma necessidade maior de visualização em mapas, já que poucos técnicos fazem este tipo de atividade”, esclarece Renata Gracie. Incrementar o número de fontes dos dados e rever e talvez retirar doenças listadas, como a cólera, também estão nos planos dos pesquisadores.

 

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Emídia Felipe

Jornalista (www.linkedin.com/in/emidia)

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