Diferenças sociais: pretos e pardos morrem mais de COVID-19 do que brancos, segundo NT11 do NOIS

Por Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), liderado pelo Departamento de Engenharia Industrial do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio)

28/05/20 | 13:05

Desigualdades no acesso ao tratamento confirmam que as chances de morte de um paciente preto ou pardo analfabeto (76%) são 3,8 vezes maiores que um paciente branco com nível superior (19,6%)

Em sua 11ª Nota Técnica (NT), o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), liderado pelo Departamento de Engenharia Industrial do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio), analisou a variação da taxa de letalidade da COVID-19 no Brasil (número total de óbitos dividido pelo total de casos encerrados, ou seja: com alta ou óbito) conforme as variáveis demográficas e socioeconômicas da população.

Idade, município do caso registrado, raça/cor, escolaridade, tipo de internação (enfermaria ou Unidade Terapia Intensiva – UTI) e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), utilizando valores obtidos pelo Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2010) para 5.565 municípios de ocorrência dos casos da COVID-19, foram os índices considerados no estudo.

Com dados atualizados até 18/05/2020, a equipe de pesquisadores avaliou cerca de 30 mil casos encerrados das notificações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) confirmadas para COVID-19, disponibilizados pelo Ministério da Saúde e que constituem apenas os casos graves. O NOIS ressalta que essas notificações não necessariamente representam o total de casos confirmados no País, embora sejam uma das principais fontes de dados a respeito da doença.

Diferenças de pirâmide etária, distribuição geográfica e desigualdades socioeconômicas refletem as diferenças nas taxas de óbitos entre os estratos sociais brasileiros no enfrentamento da doença.

Quase 55% dos pretos e pardos faleceram enquanto que, entre os brancos, esse valor ficou em 38%

Conforme os registros do Ministério da Saúde, quase dez mil se identificaram como brancos e quase nove mil como pretos e pardos. Apesar da proximidade dos números, ao avaliar os óbitos, as diferenças se evidenciam: quase 55% dos pretos e pardos faleceram enquanto que, entre os brancos, esse valor ficou em 38%.

 

Figura 2. Percentual de óbitos ou recuperados por Raça/Cor

Figura 2. Percentual de óbitos ou recuperados por Raça/Cor

 

Maior parte dos casos é de pessoas entre 50 e 70 anos

Entre os cerca de 30 mil casos avaliados, aproximadamente 55% tiveram alta. Dos internados em Enfermarias, 30,4% faleceram e, os da UTI, o valor supera o dobro: 65,3% foram a óbito.

A maioria dos casos era de pessoas entre 50 e 70 anos, sendo que, para os acima de 60, o óbito ficou acima de 50% e, entre os que tinham mais de 90, a taxa ficou em 84%.

 

Figura 4. Proporção de óbitos ou recuperados por nível de Escolaridade do paciente

Figura 4. Proporção de óbitos ou recuperados por nível de Escolaridade do paciente

Figura 5. Proporção de óbitos ou recuperados por escolaridade e Raça/Cor

Figura 5. Proporção de óbitos ou recuperados por escolaridade e Raça/Cor

Na avaliação por faixa etária, os pacientes pretos e pardos apresentaram um número maior de óbitos em relação aos brancos, em todas as faixas etárias. Como já observado, há um aumento de óbitos à medida em que a idade aumenta.

Figura 3. Proporção de óbitos por faixa de idade em cada grupo Raça/Cor (linha azul – Preta e Parda; linha laranja – Branca)

Figura 3. Proporção de óbitos por faixa de idade em cada grupo Raça/Cor
(linha azul – Preta e Parda; linha laranja – Branca)

 

raça

 

 

Ao separar por tipo de internação e raça/cor, pretos e pardos ainda apresentaram maior proporção de óbitos em relação aos brancos. A diferença entre as proporções de óbitos é maior nas internações em UTI que em enfermaria (diferença de aproximadamente 80%).

Figura 8. Proporção de óbitos e recuperados para pacientes internados em enfermaria (esquerda) e UTI (direita) por Raça/Cor

Figura 8. Proporção de óbitos e recuperados para pacientes internados em enfermaria (esquerda) e UTI (direita) por Raça/Cor

 

Quanto maior a escolaridade, menor a letalidade

As diferenças de escolaridade também se refletiram nos óbitos. Os sem escolaridade tiveram taxas três vezes superiores (71,3%) aos que têm nível superior (22,5%). Desigualdades de renda e acesso a serviços básicos sanitários e de saúde confirmam o impacto da doença nas classes brasileiras.

Figura 4. Proporção de óbitos ou recuperados por nível de Escolaridade do paciente

Figura 4. Proporção de óbitos ou recuperados por nível de Escolaridade do paciente

 

Na combinação de raças e escolaridade, as realidades desiguais ficaram ainda mais evidentes, com uma maior percentagem de óbitos de pretos e pardos, em todos os níveis de escolaridade. Os sem escolaridade mostraram uma proporção quatro vezes maior de morte do que brancos com nível superior (80,35% contra 19,65%). Além disso, pretos e pardos também apresentaram proporção de óbitos, em média, 37% maior do que brancos na mesma faixa de escolaridade, com a maior diferença sendo no nível superior (50%).

Figura 5. Proporção de óbitos ou recuperados por escolaridade e Raça/Cor

Figura 5. Proporção de óbitos ou recuperados por escolaridade e Raça/Cor

 

Óbitos x Tipo de internação x Raça/cor x Escolaridade

O NOIS também reuniu todos os dados disponíveis de internação, raça e escolaridade e as diferenças sociais acompanharam as diferenças entre óbitos. Pessoas brancas e sem escolaridade têm uma proporção de óbitos de 48% na enfermaria e 71% na UTI. Pretos e pardos, com a mesma escolaridade, têm 69% e 87%, respectivamente. Para pessoas com ensino superior, a diferença é ainda maior: o percentual de óbitos de pretos e pardos é maior que o dobro da de brancos na enfermaria (17% contra 7%) e quase 60% maior na UTI (63% contra 40%).

Figura 9. Proporção de óbitos para pacientes internados na enfermaria (esquerda) e UTI (direita) por Raça/Cor (linhas: azul – Preta e Parda e laranja – Branca) e Escolaridade (eixo horizontal inferior)

Figura 9. Proporção de óbitos para pacientes internados na enfermaria (esquerda) e UTI (direita) por Raça/Cor (linhas: azul – Preta e Parda e laranja – Branca) e Escolaridade (eixo horizontal inferior)

 

raça tipo de leito

 

 

Índice de Desenvolvimento Humanitário (IDH) impacta no total de óbitos

Com dados do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, o estudo do NOIS confirmou que a chance de morte num munícipio com baixo ou médio IDH é quase o dobro num munícipio com IDHM muito alto.

Na inserção do dado de escolaridade, o NOIS optou por analisar os municípios com IDH médio, alto e muito alto, excluindo os classificados como baixo, pois eram apenas 72 casos. Os resultados repetem o padrão das demais análises, com menos óbitos entre os de maior escolaridade e mais óbitos entre pretos e pardos.

Figura 7. Proporção de óbitos por Raça/Cor (linhas: azul – Preta e Parda e laranja – Branca) e Escolaridade (eixo horizontal inferior) e faixas de IDHM (eixo horizontal superior)

Figura 7. Proporção de óbitos por Raça/Cor (linhas: azul – Preta e Parda e laranja – Branca) e Escolaridade (eixo horizontal inferior) e faixas de IDHM (eixo horizontal superior)

Figura 6. Proporção de óbitos ou recuperados por faixa de IDHM

Figura 6. Proporção de óbitos ou recuperados por faixa de IDHM

 

 

Fonte: http://www.ctc.puc-rio.br/diferencas-sociais-confirmam-que-pretos-e-pardos-morrem-mais-de-covid-19-do-que-brancos-segundo-nt11-do-nois/

 

Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), liderado pelo Departamento de Engenharia Industrial do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio)

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