Saúde coletiva: múltiplos olhares sobre a pandemia

Por UERJ/IMS - Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

05/05/20 | 19:05

Tendo em vista a epidemia de COVID-19 e suas implicações socioculturais, econômicas e políticas, bem como a gravidade com que ela vem atingindo a vida das pessoas, a editoria da Physis lançou um convite aos professores do IMS para que compartilhassem suas reflexões sobre o tema, partindo de suas áreas de investigação. Temos aqui o resultado desse desafio.

Iniciada de forma aparentemente localizada em uma província chinesa, a epidemia de Covid-19 rapidamente se alastrou, primeiro para países europeus e logo para as Américas. Bateu às nossas portas no final de fevereiro, quando foi confirmado o primeiro caso em São Paulo. Em meados de março, o vírus e a ameaça da Covid-19 invadiram definitivamente a vida dos brasileiros.

A peculiar conjuntura política do país, com um presidente “negacionista” cuja postura é claramente anticientífica, compromete o planejamento e a execução de um combate organizado à doença. Em evidente contraste, vários profissionais do campo da saúde, entre os quais destacaria os epidemiologistas e os especialistas em gestão e planejamento em saúde, têm trabalhado com afinco para a implementação de ações eficazes nos diferentes estados, encontrando-se neste momento na linha de frente desse combate.

Um conjunto muito grande de artigos científicos tem sido publicado sobre o vírus e a epidemia, muitos deles difundidos na mídia. Grande parte engloba pesquisa básica ou aplicada que focaliza seja a estrutura física do vírus, seja o manejo clínico dos afetados, além dos estudos epidemiológicos e matemáticos sobre a propagação do contágio, dos agravamentos dos quadros e dos óbitos. Essas costumam ser as pesquisas mais discutidas e visibilizadas pela mídia de modo geral – de tal forma que, para o grande público, quando se fala que a resposta à epidemia deve vir da ciência, pensa-se imediatamente em tubos de ensaio, luvas, óculos e macacões de proteção, ou ainda no universo quantitativo do cálculo das curvas e de como achatá-las. São pesquisas extremamente relevantes e que certamente serão responsáveis pela sobrevivência e saúde de todos nós. Mas nem só de tubos de ensaio e cálculos matemáticos vive uma epidemia.

Lembremos que este vírus tem uma vida social, interage com um mundo de diferenças, impacta países, faixas etárias, grupos de risco, classes sociais, gênero e raça de modos distintos. Estamos todas e todos sujeitos a este vírus, mas o seu caráter democrático para por aí. O conjunto de informações veiculadas acerca de como se prevenir e evitar o contágio tem efeitos diferentes sobre camadas diferentes das populações. A indicação supostamente banal de higienizar as mãos encontra barreiras em um acesso desigual a saneamento, porque falta a mais básica água além do sabão.  O isolamento social, pivô das ações de prevenção, pode ser literalmente impossível. Do mesmo modo, a definição de tarefas indispensáveis (cabe a pergunta: para quem?) pode variar bastante. A casa, dentro da qual devemos nos isolar, pode ser um local de segurança e refúgio ou de perigo e violência.

Para além, portanto, da importante produção das ciências vinculadas à biologia e à medicina, assistimos também a uma significativa produção acadêmica que vem trazendo reflexões e pesquisas acerca da circulação social do coronavírus e de seu significado político. Somente para termos uma ideia da importância de tais pesquisas e reflexões, basta lembrar aqui a marca eminentemente racial da letalidade da doença, atingindo desproporcionalmente a população negra (e, nos EUA, também os chamados latinos).

Esse conjunto de comentários que agora trazemos a público é uma contribuição da Physis: Revista de Saúde Coletiva para esse tipo de reflexão. O formato de comentário pareceu-nos o mais adequado, por envolver textos mais breves e que podem estar em estágios diferentes de elaboração. A contribuição de pesquisadores e professores de outras instituições também foi bem-vinda. Decidimos publicar o resultado de nossa chamada inicialmente na página do IMS, dada a urgência de sua divulgação, o que não impedirá que façam parte do próximo número da revista. Tudo isso porque temos pressa e acreditamos que o aporte trazido aqui é parte importante do combate a esta emergência sanitária. O vírus não parece ter a intenção de esperar por lentas adaptações de formato. Apresentamos aqui um conjunto de trabalhos que cobrem aspectos diversos da epidemia – tanto no seu impacto no cotidiano das pessoas quanto na sua abrangência macropolítica – e que, esperamos, sirvam como um instrumento a mais para combater a doença e sua letalidade.

Jane Russo, editora

Revisão: Ana Silvia Gesteira
Editoração Eletrônica: Mauro Corrêa Filho

 

As ciências humanas e sociais entre múltiplas epidemias
Sérgio Carrara

Pandemia de Covid-19: agenda de pesquisas em contextos de incertezas e contribuições das ciências sociais
Marcia Grisotti

A difícil tarefa de informar em meio a uma pandemia
Kenneth Rochel de Camargo Jr. e Claudia Medina Coeli

Substâncias sob suspeita: regulações e incitações suscitadas pelo coronavírus
Martinho Silva e Rogerio Lopes Azize

O que a medicina social latino-americana pode contribuir para os debates globais sobre as políticas da Covid-19: lições do Brasil
Francisco Ortega e Dominque P. Behague

Tensões familiares em tempos de pandemia e confinamento: cuidadoras familiares
Maria Luiza A. Heilborn, Clarice E. Peixoto e Myriam M. Lins de Barros

A Re-Volta dos Vagalumes
André Luis de Oliveira Mendonça

As pílulas do Messias: salvação, negação e política de morte em tempos de pandemia
Roberta D. F. C. Silva e Leandro A. P. Gonçalves

A dimensão geopolítica da pandemia de coronavírus
Paulo Henrique de Almeida Rodrigues e Lusiana Chagas Gerzson

O dia em que a vida parou. Expressões da colonialidade em tempos de pandemia
Flávia Souza

O neoliberalismo como linguagem política da pandemia: a Saúde Coletiva e a resposta aos impactos sociais
Ronaldo Teodoro dos Santos

A bipolaridade da crise sanitária: sofismas economicistas e impactos sociais na pandemia do Coronavírus
Marcia Silveira Ney e Carlos Alberto Grisólia Gonçalves

BASTA: reflexões em torno da Covid-19
Maria Andrea Loyola

Distanciamento e isolamento sociais pela Covid-19 no Brasil: impactos na saúde mental

Rossano Cabral Lima

Fonte: https://www.ims.uerj.br/2020/04/28/saude-coletiva-multiplos-olhares-sobre-a-pandemia/

UERJ/IMS - Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

4 Comentários em “ Saúde coletiva: múltiplos olhares sobre a pandemia ”

  1. Andréa Vasconcellos
    08/05/20 - 11:05

    Parabéns pela iniciativa!!

  2. Equipe Editorial do Portal DSS Brasil
    13/05/20 - 17:05

    Prezada Andréa, agradecemos sua participação e interesse.
    Atenciosamente,
    Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

  3. Viviane Giordano
    17/05/20 - 15:05

    Reflexões muito interessantes, contribuindo para melhorias na saúde populacional! Parabéns!

  4. Equipe Editorial do Portal DSS Brasil
    18/05/20 - 15:05

    Prezada Viviane, agradecemos sua participação e interesse.
    Atenciosamente,
    Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

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