Um panorama da pesquisa em saúde no Brasil

Por Weverthon Machado

29/06/20 | 13:06

A produção científica brasileira nas áreas da saúde dobrou sua participação na produção mundial nas duas últimas décadas, refletindo um crescimento constante liderado por áreas específicas

Entre 2016 e 2018, pesquisadores vinculados a instituições brasileiras produziram pouco mais de 237 mil publicações catalogadas pela base de dados Scopus. A grande maioria dessas publicações — ou “documentos” — é formada por artigos, mas também são contados livros, capítulos de livros, resenhas e outros tipos de documentos científicos. Isso equivale a 2,6% da produção científica mundial no mesmo período — para comparação, em 2000 nossa participação era de 1,2%. De pesquisas sobre o vírus Zika a tratamentos oncológicos inovadores, as ciências da saúde são parte relevante da produção científica brasileira. Este texto oferece um breve panorama da pesquisa em saúde no Brasil, apontando as especialidades que se destacam em alguns indicadores bibliométricos básicos. É importante, entretanto, ter cautela ao analisar esses resultados: sabe-se, por exemplo, que bases como Scopus e Web of Science têm cobertura limitada de documentos que não estão em inglês, o que pode levar à subestimação tanto do volume quanto da influência da produção brasileira.

Começando por um nível mais agregado, a Tabela 1 mostra a produção brasileira em oito áreas do conhecimento relacionadas com a saúde. A área de Medicina, por exemplo, respondeu por quase um quarto da produção brasileira no período analisado. A contribuição brasileira para a produção mundial em várias dessas áreas é superior à nossa média de 2,6%. Em Odontologia, por exemplo, a contribuição do Brasil é muito alta: fomos responsáveis por 12% da produção mundial. Mas também se destacam as participações nas áreas de Profissões de saúde, Imunologia e microbiologia e Enfermagem.

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Essas áreas incluem uma grande variedade de temas e especialidades. Por exemplo, as publicações classificadas em Medicina incluem de anatomia a políticas públicas de saúde. Para entender melhor a produção brasileira em ciências da saúde, nos valemos da classificação temática mais desagregada usada pela Scopus. Considerando-se as subcategorias com pelo menos 300 documentos no mundo e 30 de pesquisadores em instituições brasileiras durante o período em questão, as oito áreas acima desdobram-se em 113 especialidades, que nos permitem traçar um retrato mais detalhado da pesquisa em saúde no Brasil.

Em quais especialidades o Brasil mais publica?

Também no nível das subcategorias a área de Medicina se sobressai em termos de volume de publicações, em parte porque tem maior diversidade temática: são 46 especialidades, cinco delas entre as dez mais produtivas do país. Em primeiro lugar vem a subcategoria “Medicina geral”, com 6.304 publicações, seguida de “Saúde pública, ambiental e ocupacional” com 6.016 publicações. A área de “Bioquímica, genética e biologia molecular” responde por quatro das dez especialidades mais produtivas, incluindo Bioquímica, em terceiro lugar, com 5.522 documentos. Entre as com maior volume de produção temos ainda: Doenças infecciosas (5.479 documentos), Biologia molecular (5.099), Bioquímica, genética e biologia molecular (geral) (4.973), Genética (4.847), Cirurgia (4.834), Odontologia geral (4.373) e Farmacologia (3.419).

Cabe notar que quase todas as áreas têm mais de uma especialidade com pelo menos 1.000 documentos no período, ainda que a distribuição interna seja mais concentrada para algumas áreas. Por exemplo, a categoria “Fisioterapia, terapia esportiva e reabilitação”, com 2.754 documentos, responde por mais da metade das publicações da área de “Profissões da saúde”.

Em quais especialidades o Brasil mais contribui proporcionalmente?

O número de publicações é útil para conhecermos a capacidade instalada de pesquisa em saúde no Brasil e sua distribuição temática. Essa distribuição reflete, em parte, os contornos da ciência global: o tamanho da comunidade científica em certas áreas do conhecimento, o nível de amadurecimento de diferentes campos de pesquisa, o número de periódicos que contemplam determinados temas, entre outros fatores. A área de Medicina, por exemplo, tem peso relevante na produção científica mundial como um todo — de fato, sua participação no total de publicações no mundo é praticamente a mesma que no Brasil, cerca de 24%.

Também é importante entender, no entanto, em quais campos do conhecimento a ciência brasileira se destaca, o que pode indicar vantagens comparativas do nosso sistema de pesquisa. Uma forma de explorar essa questão é avaliar a participação percentual de pesquisadores de instituições brasileiras na produção mundial de cada especialidade. O Gráfico 1 mostra essa participação para cada uma das 113 subcategorias das áreas de saúde, destacando as dez especialidades mais bem posicionadas. Como referência, a linha preta indica os 2,6% da participação brasileira em todas as áreas do conhecimento.

Já vimos na Tabela 1 que na área de Odontologia o Brasil tem sua maior contribuição proporcional, e isso fica igualmente claro no gráfico abaixo. Todas as subcategorias de Odontologia constam entre as dez maiores participações do Brasil. Pesquisadores de instituições brasileiras foram responsáveis por mais de 14% das publicações em “Odontologia geral” e cerca de 12% em Periodontia. Mas também contribuímos muito acima da nossa média em áreas como Parasitologia (10,6%) e “Fisioterapia, terapia esportiva e reabilitação” (6,4%).

Gráfico 1 – Participação percentual do Brasil na produção científica mundial, por subcategoria das áreas de saúde, 2016-2018

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Em quais especialidades o impacto do Brasil é maior?

A pesquisa científica é um empreendimento coletivo, cujo desenvolvimento depende do debate constante e difusão do conhecimento de ponta. É essencial avaliar, portanto, a influência da pesquisa brasileira em termos de sua inserção no debate científico global. A média de citações por publicação é um bom ponto de partida, mas as áreas variam bastante nesse aspecto. Por exemplo, os documentos publicados entre 2016 e 2018 por todos os países na área de Odontologia tinham em média 3,1 citações até Novembro de 2019; na área de “Bioquímica, genética e biologia molecular”, essa média era de 7,3.

Para entender a influência da ciência brasileira em diferentes especialidades, cabe determinar em que medida as publicações brasileiras são mais ou menos citadas do que as do resto do mundo. O Gráfico 2 nos permite avaliar exatamente isso, apresentando, para cada subcategoria, a razão entre a média de citações de publicações brasileiras e a média de citações das publicações de todos os países. A interpretação da escala, portanto, é simples:  valores maiores que 1 indicam que, naquela especialidade, a produção científica de instituições brasileiras é mais citada, em média, do que a de todos os países; o inverso, claro, para valores menores que 1.

Nessa métrica, a área de Medicina volta a se destacar. Em “Medicina geral”, por exemplo, as publicações brasileiras tiveram, em média, mais do que o triplo de citações da média mundial.

Gráfico 2 – Impacto normalizado dos documentos do Brasil, por subcategoria das áreas de saúde -  2016-2018

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Curiosamente, não há nenhuma sobreposição entre as 10 (ou mesmo as 20) categorias em que o Brasil tem maior participação na produção mundial e aquelas em que o impacto da nossa produção é maior. Por um lado, a alta contribuição numérica para alguns campos pode não se traduzir em impacto da mesma magnitude. Por outro, o país pode ter publicações muito citadas em determinadas especialidades, mas que representam uma proporção muito pequena da produção da área. Novamente é importante frisar as limitações de cobertura da base de dados. Por exemplo, algumas especialidades podem ter uma proporção maior de suas citações concentradas em periódicos nacionais ou regionais não indexados pela Scopus.

O Gráfico 3 combina as métricas apresentadas nos dois gráficos anteriores, ilustrando a relação entre contribuição para a produção mundial e impacto normalizado. Fica claro que a relação entre essas duas dimensões não é direta. Nas especialidades em que o Brasil tem maior impacto, nossa participação percentual está abaixo ou muito próxima da média de 2,6% (novamente indicada por uma linha de referência). Por outro lado, a alta participação brasileira em categorias como Parasitologia e as da área de Odontologia não se traduz em uma média de citações muito diferente da mundial.

Gráfico 3 – Participação percentual versus impacto das publicações de pesquisadores brasileiros, por subcategoria das áreas de saúde – 2016-2018

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Finalmente, é interessante notar a inserção brasileira em áreas de maior ou menor peso na produção mundial. O tamanho dos círculos no Gráfico 3 é proporcional ao número de documentos da respectiva categoria publicados no mundo entre 2016 e 2018. A categoria com maior volume de publicações no Brasil, “Medicina geral”, também ocupa essa posição no mundo, com mais de 340 mil documentos no período. E também é justamente, como vimos, aquela em que temos o maior impacto. As especialidades em que o Brasil tem impacto muito baixo, como “Terapia ocupacional”, são relativamente pequenas em termos de produção mundial.

Em resumo, a despeito de considerável variação dos indicadores entre especialidades, a pesquisa em saúde no Brasil é não só volumosa, mas também tem grande diversidade temática e em geral impacto compatível com níveis internacionais.

 

Fonte: Machado W. Um panorama da pesquisa em saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; 2020 Jun 26 [acesso em 29 jun 2020]. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/179-um-panorama-da-pesquisa-em-saude-no-brasil

 

Weverthon Machado

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