A percepção da Comunicação como parte do processo de Determinação Social da Saúde

Entrevista com Inesita Soares de Araújo

28/11/13 | 11:11

Inesita: ara compreender o lugar da Comunicação na luta contra as iniquidades em saúde é necessário antes compreender o modo pelo qual ela constitui os processos sociais de determinação dessas iniquidades.

Inesita: para compreender o lugar da Comunicação na luta contra as iniquidades em saúde é necessário antes compreender o modo pelo qual ela constitui os processos sociais de determinação dessas iniquidades.

Qual é o papel da Comunicação no combate às iniquidades e na busca pela compreensão e estruturação de políticas que foquem os DSS?

Para compreender o lugar da Comunicação na luta contra as iniquidades em saúde é necessário antes compreender o modo pelo qual ela constitui os processos sociais de determinação dessas iniquidades. Mas, para isto, é preciso que vejamos a comunicação para além de sua dimensão instrumental, que estabelece para ela um lugar subsidiário e aparentemente neutro no campo da saúde. É preciso entender a comunicação como um processo social, estruturante dos demais processos. É pela comunicação que se formam os sentidos da vida e do mundo que organizam as relações na sociedade; é pela comunicação que se imprime sentido às realidades, portanto que se constroem as realidades. É pela comunicação que se atribui existência e se qualifica essa existência; em outras palavras, que se determina quem será visível, como será visível e quem será esquecido. O negligenciamento na saúde, que se refere tanto a doenças quanto a populações, passa rigorosamente pela comunicação.

De um ponto de vista mais aplicado, estamos falando da inequidade na distribuição da possibilidade de falar, ser ouvido e ser levado em consideração. Estamos falando do princípio da universalidade e da equidade, estamos falando de descentralização e de participação social. Estamos falando de comunicação. Estamos falando de direito à comunicação, que é inalienável do direito à saúde.

A comunicação está no processo de determinação social da saúde tanto quanto qualquer outro determinante já consagrado pela literatura. Ela impacta o direito à saúde, impacta todos os processos sociais, culturais e políticos relacionados com o bem estar físico, mental e social. Ela está na base da possibilidade de fortalecimento ou enfraquecimento do capital social das pessoas e grupos (como ouvi o prof. Alberto Pellegrini falar, boa parte da literatura reconhece o capital social como capaz de fortalecer os demais capitais). É pela comunicação que se pode equalizar os amplificadores dos discursos que circulam no espaço público e ouvir os sentidos que estão negligenciados, silenciados.

Então, para terminar e mais uma vez citando o professor Pellegrini, as iniquidades relacionadas à informação e à comunicação são determinante dos mais perversos, porque acentuam os demais DSS. O problema central que se coloca seja talvez o da relação entre a pobreza e a desigualdade em saúde, tanto pelo desigual acesso a uma informação que corresponda e potencialize seus interesses quanto pela ausência de voz frente ao Estado, às instituições e à sociedade.

 

Qual é a importância do documento e da reunião (encontro ocorrido durante a 1ª CRDSS**) diante da necessidade de mostrar que a Comunicação vai muito além de um simples instrumento de disseminação de conteúdo?

A percepção da comunicação como parte do processo de determinação social da saúde vem sendo elaborada há já quase uma década, através de sucessivas aproximações, em alguns artigos e pesquisas. No entanto, ela foi enunciada mais claramente pela primeira vez por nós em um seminário sobre negligenciamento em saúde ocorrido na Fiocruz em Recife, em 2011. A reunião ocorrida agora em setembro, como um pré-evento da I Conferência Regional de DSS foi o primeiro movimento no sentido de abordar o tema de forma mais ampliada e dirigida, buscando um entendimento comum que permitisse formular uma pauta mínima e coletiva de avanços no sentido do reconhecimento da relação entre comunicação e determinação social da saúde. O documento resultante buscou sintetizar ao máximo essa pauta, para incentivar e facilitar sua apropriação pelos participantes da Conferência, que provavelmente são uma excelente representação do pensamento atual sobre os determinantes sociais em saúde.

 

Por que ainda hoje, em um mundo onde a velocidade da informação e sua importância são amplamente conhecidas, ainda existe o pensamento de que Comunicação é apenas uma função e não um conjunto de práticas fundamentais na busca pelo conhecimento, tal qual a ciência?

A velocidade e a importância da informação apenas consolidam a visão instrumental da comunicação. Você pode olhar uma rede social, por exemplo, pelos seus aspectos tecnológicos, mas também poderia olhar como processo social e político, como lugar do exercício de relações de poder, como lugar dos embates pelos sentidos de tudo (política, moral, afetos etc.). Aliás, tudo depende do ponto de vista, não é? Além disto, tecnologia avançada não representa necessariamente uma comunicação compartilhada, descentralizada, com mais equidade. Uma instituição pública de saúde pode ocupar um espaço digital e usar das propriedades tecnológicas que imprimem velocidade à informação apenas para potencializar sua fala verticalizada e autoritária, e não para ampliar os canais de escuta da população e abrir um verdadeiro processo de interlocução.

Diante de tantas manifestações populares e o crescimento de sua força nas mídias digitais, como você vê o papel da Comunicação no fortalecimento do empoderamento popular e na consolidação dos objetivos dos movimentos sociais?

Se a gente entender a comunicação como a capacidade de produzir e fazer circular sua visão de mundo, suas demandas, seus interesses, capacidade de disputar o poder de “fazer ver e fazer crer” (estou usando uma expressão de Pierre Bourdieu), pode compreender o lugar que ela ocupa e sempre ocupou nesse fortalecimento dos movimentos sociais que você fala. As mídias digitais, com sua natureza descentralizadora e em princípio mais democrática, potencializam extraordinariamente esse processo. Agora a disputa social dos sentidos que organizam nossa compreensão do mundo está muito mais rica, mais acirrada, mais bonita. No entanto, isto não deve arrefecer a necessária luta pela democratização dos meios de comunicação nem nos fazer perder de vista que no espaço digital as relações de poder ainda permanecem e alguns podem mais que outros.

 

Quais obstáculos ainda estão no caminho da Comunicação para que seja reconhecida por todos como fundamental para a prática científica?

Nós que vivemos imersos na dimensão acadêmico-científica da comunicação queremos que ela seja reconhecida como ciência, não como algo que auxilia a prática científica. Se utilizarmos a noção de campo, talvez possamos entender melhor isto. Campo é uma noção que fala de um espaço multidimensional composto por múltiplos elementos, p.ex, história, teorias, metodologias, agentes, interesses, políticas, capitais diversos, tecnologia, práticas etc. etc. Então, tanto esse campo pode se manifestar como prática modelada por interesses e tecnologias, p.ex., como pode ser percebida como lugar de produção de conhecimento sobre a sociedade, ou, se preferir, de um conhecimento científico. Para mim, o maior obstáculo para que esta concepção ganhe visibilidade e força é a persistência do velho modelo que associa a comunicação à solução dos problemas de saúde e de pobreza, sim, mas pela sua propriedade de disseminar informações em geral normativas e prescritivas sobre hábitos e procedimentos que as pessoas devem tomar e que, em tese, deveriam resolver seu problema, já que este é entendido como decorrente de uma atitude individual, ignorando justamente os determinantes sociais da saúde. (Aliás, a visão da saúde como um problema individual é um obstáculo para toda a perspectiva dos DSS e a comunicação não só reflete como agrava a situação). Hoje temos cursos de pós-graduação, estamos nos congressos científicos, escrevemos papers, artigos, livros, temos mestres e doutores na área, mas as instituições continuam contratando assessores de comunicação para atividades vinculadas apenas à visibilidade da gestão, ou cumprimento de ações de ordem preventivista, pautadas em calendários fixos e descontextualizadas.

 

*Foto: arquivo pessoal da entrevistada

** http://dssbr.org/site/2013/09/conferencia-de-comunicacao-debate-determinantes-sociais-na-crdss/

Inesita Soares de Araújo

Citação Bibliográfica

Araújo IS. A percepção da comunicação como parte do processo de determinação social da saúde [entrevista na internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2013 Nov 28. Entrevista concedida a Jaqueline Pimentel. Disponível em: http://dssbr.org/site/entrevistas/a-comunicacao-como-ciencia/

Possui mestrado e doutorado em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É líder do grupo de pesquisa Comunicação e Saúde (CNPq), coordenadora do GT Comunicación y Salud da Associação Latinoamericana de Investigadores da Comunicação (ALAIC), membro do GT Comunicação e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

1 Comentário em “ A percepção da Comunicação como parte do processo de Determinação Social da Saúde ”

  1. Maria Veriane de Oliveira
    04/12/13 - 21:12

    A entrevista de Inesita Soares me fez refletir que todos nos só teremos nosso direito a equidade quando a inequidade tiver fim, quando todos aprendemos que temos direitos de ter os nossos direitos respeitados, como melhorias na saúde, moradias de qualidade, direito ao lazer, enfim o direito a uma vida de qualidade, e isso só sera possível quando todos nos darmos as mãos e lutarmos por esse objetivo.

    A ESCALADA É ALTA, MAS A VISTA É LINDA!!

    OBRIGADA, VERIANE

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