Conheça mais sobre tuberculose, sintomas e formas de tratamento

Entrevista com Celina Boga por Informe ENSP

24/06/14 | 16:06

A tuberculose é uma doença infecto contagiosa, muito antiga, também conhecida como ‘tísica pulmonar’. Os pulmões são os órgãos mais afetados, mas a tuberculose pode acometer os rins, a pele, os ossos, os gânglios. O contágio ocorre pelo ar, através da tosse, espirro e fala da pessoa que está doente que lança os bacilos no ambiente. Quem convive próximo ao doente, aspira esses bacilos e pode também adoecer. Sabe-se que o bacilo pode permanecer no ambiente por um período de até oito horas, ainda mais quando o domicílio não é ventilado e arejado.

Além do tratamento oferecido pelo Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, a ENSP conta com o Observatório Tuberculose Brasil. Integrante da rede FIO-TB, o observatório é composto de diversas unidades da Fiocruz, com a proposta de articular as ações de pesquisa e serviço da Fundação na área. Busca fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e contribuir para o controle da tuberculose, com o monitoramento das políticas públicas de saúde e promoção do controle social.

A Escola conta ainda com o Centro de Referência Prof. Hélio Fraga. Criado em 1984 pela Campanha Nacional Contra a Tuberculose (CNCT), O CRPHF é a instituição nacional de referência do SUS para tuberculose e outras pneumopatias, destacando-se como órgão de apoio às ações nacionais em saúde pública.

Dados da tuberculose no Brasil

Segundo o Ministério da Saúde, em 2013, o país registrou 71.123 novos casos de tuberculose, queda de 20,3% desde 2003. O Brasil ocupa, atualmente, o 16º lugar num ranking de 22 nações consideradas ‘de alta carga’ (onde há grande circulação da doença), mas o 111º lugar em comparação a todos os países do mundo. No país, a tuberculose representa a 4ª causa de morte por doenças infecciosas e a primeira causa de morte por doença identificada entre pessoas com HIV.

São mais vulneráveis à doença as populações indígenas – 3 vezes mais -, presidiários – 28 vezes -, moradores de rua – 44 vezes mais, devido à dificuldade de acesso aos serviços de saúde e às condições específicas de vida –, além das pessoas vivendo com o HIV e Aids.

Dos nove milhões de casos de tuberculose estimados no mundo, 3 milhões não são detectados, as pessoas não sabem da doença

A médica do CSEGSF/ENSP Celina Boga dá mais detalhes sobre a doença. Confira.

Quais os principais sintomas da doença?

Celina Boga: O principal sintoma é a tosse. A pessoa pode tossir meses, sem, contudo pensar na Tuberculose. Outros sintomas incluem falta de apetite, emagrecimento, suor noturno acompanhado de febre baixa que é mais comum no final da tarde. Pode existir catarro esverdeado, amarelado ou com sangue. Nem sempre todos esses sintomas aparecem juntos. Devemos valorizar a tosse, principalmente quando ela dura mais de 03 semanas.

Como é feito o diagnóstico da tuberculose?

Celina Boga: O diagnóstico é feito pela história de adoecimento da pessoa e também pelo exame clínico. Deverá ser confirmado por exames específicos, como no caso da baciloscopia e a cultura do escarro e também pelo RX de tórax. Pode ser que sejam necessários outros exames, como a biópsia, dependendo do órgão afetado.

Há grupos de pessoas mais propensos a contrair a doença?

Celina Boga: Existem sim grupos mais vulneráveis. As pessoas portadoras do HIV, em função da diminuição da defesa do organismo, assim como os diabéticos, os fumantes, as pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas e aquelas privadas de liberdade. Os primeiros, de uma forma ou outra, têm defesas orgânicas reduzidas e os últimos permanecem em condições nas quais a exposição ao bacilo é diariamente renovada.

É possível prevenir a tuberculose?

Celina Boga: A prevenção é feita através da vacina BCG, recomendada para aplicação no primeiro mês de vida da criança. A vacina diminui as chances de desenvolver formas graves da doença, como a meningite tuberculosa, mas não é eficaz contra a tuberculose pulmonar. Outra forma é através da prevenção secundária com isoniazida. A proteção é recomendada para as pessoas que convivem com a pessoa doente, seja na casa ou no trabalho. Essa proteção só é recomendada após a avaliação do teste PPD e do RX de tórax de todos os contatos próximos. Objetivamente a forma mais eficaz é a descoberta das pessoas doentes e o início rápido do tratamento.

Qual o tratamento para pessoas com tuberculose?

Celina Boga: O tratamento é feito com quatro drogas que estão todas no mesmo comprimido – rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol. Nos primeiros dois meses – fase intensiva do tratamento -, a pessoa usa essas quatro drogas. Na fase de manutenção que dura quatro meses a pessoa usará apenas duas drogas – a rifampicina e a isoniazida. Quando esse tratamento de seis meses é bem feito a maioria das pessoas ficam curadas da infecção. É importante que se divulgue que o tratamento pode e deve ser realizado nas unidades de saúde do bairro. Alguns casos mais complexos e graves exigirão internação hospitalar.

Quais os principais riscos na interrupção do tratamento?

Celina Boga: Além do risco do agravamento da doença existe o risco de desenvolver uma bactéria resistente às drogas utilizadas no tratamento. O bacilo pode ficar resistente a um ou vários medicamentos. O tratamento nessa situação é mais longo e pode durar de 1 a 2 anos, além de exigir o uso de várias drogas associadas.

Que ações vêm sendo viabilizadas pelo Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP) para combater a doença na região de Manguinhos?

Celina Boga: - A situação da tuberculose em Manguinhos é preocupante e não difere muito de outros bairros pobres da Cidade do Rio de Janeiro. Temos observado, ano a ano, o progressivo aumento no número de casos notificados da doença.

A maior capacidade de diagnóstico tem sido favorecida pelo trabalho das Equipes da Saúde da Família que, desde 2011, dão cobertura a 100% das famílias moradoras do bairro, facilitando o acesso aos serviços de saúde da região. Mas temos consciência que existem casos que ainda não foram identificados e não iniciaram tratamento adequado. Sabemos ainda que nem todas as pessoas que estão doentes fazem seu tratamento no CSEGSF ou na CFVV. Procuram tratamento em outras unidades de saúde temendo o preconceito de vizinhos, amigos e até de familiares.

Este é um aspecto da maior importância a ser trabalhado junto às comunidades. Desmistificar a doença, reconhecer que ela incide com mais força onde existe pobreza, grandes aglomerações humanas em habitações insalubres onde convivem crianças, adultos, idosos. Onde a situação social e econômica é desfavorável, a tuberculose estará presente.

Do mesmo modo que o CSEGSF procura capacitar seus profissionais para o atendimento e acompanhamento qualificado de cada caso, também tem procurado agir de forma a garantir todos os recursos para o diagnóstico seguro da doença. Temos discutido muito sobre como enfrentar o abandono do tratamento, que é um grande problema em Manguinhos e as dificuldades para a avaliação dos contatos domiciliares de cada caso.

Apostamos que é necessário envolver a comunidade nessa discussão e identificar uma rede humana solidária que contribua para o enfrentamento do problema. Divulgar e esclarecer sobre a doença, identificar situações críticas e promover ações de apoio aos que estão mais vulneráveis e mais distantes dos serviços de saúde, requerer o cumprimento das diferentes políticas públicas – educação, trabalho, renda, direitos humanos e sociais – que, se efetivamente aplicadas, podem favorecer o desenvolvimento e o fortalecimento da comunidade de Manguinhos.

Fonte: Boga C. Conheça mais sobre tuberculose, sintomas e formas de tratamento [entrevista na internet]. Rio de Janeiro: Informe Ensp; 2014 Jun 18. Entrevista concedida a Annalu Pinto da Silva. [acesso em 24 jun 2014]. Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/35603 

Celina Boga por Informe ENSP

Celina Boga possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, residência médica em Medicina Geral e Comunitária pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, especialização e mestrado profissional em Saúde Pública, na sub-área de Avaliação de Programas de Controle de Processos Endêmicos com ênfase em DST/HIV/AIDS, ambos pela Fundação Oswaldo Cruz. Atualmente é Médica do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria/ENSP/Fiocruz e médica pediatra da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro.

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