Consultora fala sobre desigualdade na tecnologia da saúde como grande desafio contemporâneo

Entrevista com Lieve Fransen

04/07/19 | 14:07

A Fiocruz recebeu (27 e 28 de junho) a visita da consultora sênior da Comissão Europeia em políticas de saúde, sociais e de migração, Lieve Fransen. A consultora se reuniu com representantes da Fiocruz para debater a realização da próxima Conferência Global sobre Tecnologia e Inovação Sustentáveis (G-STIC), que acontece no final do ano, em Bruxelas e da qual a Fiocruz é co-anfitriã. Ela aproveitou a ocasião para conhecer as instalações do campus de Manguinhos (RJ) e discutir possíveis colaborações internacionais da Fundação.

Fransen começou sua carreira como médica, trabalhando em países africanos, como Moçambique, Cabo Verde e Ruanda, e se especializou em medicina tropical. Posteriormente, trabalhou com políticas públicas para saúde em organismos internacionais, como ONGs e agências da ONU, e participou da criação de estudos, programas e fundos para a área da saúde, como o Fundo Global para Aids, Malária e Tuberculose. Atualmente, ela atua como consultora o G-STIC e para diversas organizações e empresas em áreas como saúde, educação e direitos das crianças.

A consultora defende que a cooperação internacional em saúde pode levar à maior inovação, necessária para solucionar os grandes desafios globais. Para tal, é necessário convencer os líderes políticos da importância de se investir, quebrando os nichos em organizações, aprendendo com outros exemplos e correndo riscos. Em entrevista, ela falou sobre o seu trabalho, a cooperação com a Fiocruz e o que ela acredita que possa ser o papel do G-STIC.

Consultora defende que a cooperação internacional em saúde pode levar à maior inovação, necessária para solucionar os grandes desafios globais (foto: Peter Ilicciev)

Consultora defende que a cooperação internacional em saúde pode levar à maior inovação, necessária para solucionar os grandes desafios globais (foto: Peter Ilicciev)

AFN: Em sua apresentação, você destacou a desigualdade na tecnologia da saúde como um grande desafio contemporâneo. Qual você acredita que deva ser um caminho para solucionar isso? Você conhece bons exemplos de ações que já estejam sendo tomadas nesse sentido?

Lieve Fransen: Em primeiro lugar, estou envolvida com tecnologia porque é parte de trabalhar com a Fiocruz e o G-STIC para chegar às tecnologias inovadoras certas para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, especificamente em saúde no caso, mas também em outras áreas como meio ambiente e clima. O que falei e o que eu acredito é que existe uma grande desigualdade na tecnologia, mas também em muitas outras coisas, é claro. E, desde sempre, existe uma falta de tecnologia onde ela é mais necessária. Onde existe menos investimento, existe menos tecnologia.

Quando comecei meu trabalho em Moçambique, este era o país mais pobre do mundo. Eu trabalhava como médica e não haviam tecnologias disponíveis, não haviam remédios disponíveis e eles precisavam muito mais que em outros lugares. Eu fui formada na Europa, onde tínhamos tudo disponível quando nem precisávamos tanto. E isto ainda é verdade e acho que precisamos fazer algo a respeito. Nunca houve um momento tão empolgante para estar na área de saúde digital do que agora. As tecnologias da saúde abrangem todos os dispositivos, medicamentos, vacinas, procedimentos e sistemas projetados para agilizar as operações de saúde, reduzir os custos e melhorar a qualidade do atendimento. No entanto, são fundamentais tecnologias para minimizar problemas de saúde causados por falta de saneamento, poluição na água e no ar e falta de acesso à saúde primária.

O que é interessante neste momento é que cada vez mais algumas empresas e algumas instituições públicas, como a Fiocruz, realmente ganharam uma importância maior. Elas são capazes de desenvolver tecnologias nos lugares onde elas são mais necessárias. Por exemplo, a Fiocruz entende muito melhor qual tipo de tecnologia é necessária para zika, para febre amarela, porque conhece a realidade. E, de certo modo, esse tipo de instituição vai cada vez mais desenvolver os produtos certos para as pessoas que precisam. Então, eu acho que existe esperança. A Fiocruz é um bom exemplo para isso, mas eu também trabalho com empresas privadas, como a Phillips. A Phillips sempre desenvolveu tecnologia para o Ocidente, como grandes scanners. Mas agora eles finalmente entenderam que é importante – não apenas para as pessoas, mas também para o mercado – que exista tecnologia em áreas que precisam mais. E tecnologia adequada para essas situações.

AFN: Qual deve ser o papel do G-STIC em promover a inovação para os ODS?

Lieve Fransen: Eu aceitei trabalhar com o G-STIC porque é uma iniciativa muito interessante realmente olhar para as tecnologias no mundo todo nas áreas necessárias para se atingir os ODS. Não apenas para se trabalhar nos países industrializados ou com empresas privadas, mas com uma gama de parcerias entre empresas públicas e privadas. Para mim, o mais interessante é identificar quais são as tecnologias que estão praticamente prontas e que devem ser mais usadas em uma escala maior.

Vocês têm tecnologias que eu não conhecia e vi aqui que podem ser apresentadas na conferência para realmente melhorar a saúde no mundo. É importante também ter certeza que os métodos estão corretos e ter capacidade local e regulatória. O que a Fiocruz fez com Moçambique é um exemplo muito interessante, mas isso precisa ser feito em uma escala mundial. Ou seja, bem maior do que vocês estão fazendo aqui no momento.

Eu acho que o G-STIC pode ser o catalizador para isso. E eu acredito que as tecnologias não são a única solução, mas as tecnologias podem ser uma grande solução para melhorar saúde e outras áreas, como o clima e a vida das pessoas.

AFN: Entre as tecnologias que você viu na Fiocruz, quais foram as que mais lhe impressionaram?

Lieve Fransen: O que me impressionou mais nesse momento na Fiocruz é que vocês não trabalham com uma tecnologia apenas, mas vocês trabalham desde o começo, da pesquisa básica à entrega. Então, isto é muito interessante e é algo que eu não encontrei em nenhum outro lugar. Isso me impressionou mais do que quando eu estava lendo sobre a cadeia completa. Isso também torna possível que a Fiocruz esteja preparada, como aconteceu com a zika, para que se possa ter uma resposta rápida, com um sistema de vigilância preparado. E, a partir disso, desenvolver vacinas e diagnósticos com rapidez. O potencial da Fiocruz é algo que não existe em nenhum outro lugar, eu acredito.

AFN: Qual a importância de convencer outros setores para que as políticas para saúde sejam prioridade?

Lieve Fransen: Em toda minha vida, o meu trabalho de 15 anos como médica na África e depois para a Comissão Europeia me ensinou que não devemos ficar em um nicho da saúde. Não coloque apenas médicos ou pesquisadores juntos, tente explicar para outras áreas. Muitos médicos e pesquisadores não são bons em explicar para os políticos por que é importante investir, ir além dos argumentos humanitários. Explicar por que é importante não só para o ministro da saúde, mas também para o da economia e para o presidente. Eles precisam entender o potencial e a necessidade de se investir na saúde das pessoas.

Eu aprendi isso em toda minha vida e também quando trabalhei com o Stiglitz [Joseph Stiglitz, economista vencedor do Prêmio Nobel]. Pela primeira vez, fizemos um estudo sobre o impacto macroeconômico da saúde: o que significa para uma sociedade se as pessoas não estão saudáveis? Só se você estiver saudável que você consegue fazer um trabalho produtivo, ter filhos saudáveis, educar as crianças. E os políticos nem sempre veem isso. Eles costumam olhar para a saúde como um custo. Custa muito caro investir em clínicas e em medicamentos.

Isso é algo que o Brasil já entendeu há muito tempo, que investir em populações saudáveis vale a pena. A Fiocruz é essencial nesse processo, como vi aqui, com todos os medicamentos e vacinas que vocês produzem com investimento público. O Brasil é um dos únicos países do mundo em que isso acontece. Então, devemos aprender com essa experiência brasileira.

Em 2001, o Brasil foi o primeiro país a fazer antirretrovirais para o tratamento gratuito de HIV. E o resto do mundo se perguntou como vocês conseguiam fazer, o custo era muito alto. Mas vocês fizeram e conseguiram não a deixar as pessoas mais saudáveis como também bloquear a epidemia. Porque se você trata, você transmite menos.  Isso foi muito interessante e provocou uma mudança na minha mentalidade e na de outras pessoas. A partir de então, fomos capazes de criar um Fundo Global para Aids, Malária e Tuberculose. O modelo brasileiro foi muito inspirador.

AFN: Como a Comissão Europeia trabalha nesse campo?  E como se desenvolvem as parcerias com instituições como a Fiocruz?

Lieve Fransen: A Comissão Europeia normalmente trabalha com países a partir de suas demandas. Então, o governo precisa pedir o apoio da Comissão e precisa especificar para qual área. Isso depende do país, se for definido que a prioridade é agricultura, por exemplo, este será o apoio dado. Este é um canal, a comissão de desenvolvimento. Mas nós também temos outras áreas, como as de pesquisa, onde também temos fundos e onde pode haver cooperação. Ou seja, existem muitas outras opções que precisamos explorar mais e esse é um dos motivos da minha visita. Também pretendo apresentar a Fiocruz à Comissão Europeia e a outros parceiros para que cooperações possam ser desenvolvidas.

 

Fonte: Fransen L. Consultora fala sobre desigualdade na tecnologia da saúde como grande desafio contemporâneo. [entrevista na internet]. AFN Notícias; 04 Jul 2019. Entrevista concedida a Julia Dias. [acesso em 04 jul 2019]. Disponível emhttps://agencia.fiocruz.br/consultora-fala-sobre-desigualdade-na-tecnologia-da-saude-como-grande-desafio-contemporaneo

Lieve Fransen

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