Expectativa de vida do nordestino aumenta, mas ainda está abaixo da média nacional

Entrevista com Alexandre Kalache

08/09/14 | 13:09

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Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade, comenta sobre o que influenciou esta mudança (Imagem: Divulgação)

Entre 1980 e 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro cresceu 11,24 anos. Hoje a esperança de vida ao nascer é de 73,8 anos no país. O Nordeste registrou o maior salto entre todas as regiões e aumentou em 13 anos a expectativa de vida ao nascer. O crescimento fez com que a região chegasse à marca de 71,2 anos. Apesar disso, a longevidade da população nordestina está abaixo da média nacional e fica atrás apenas da região Norte, onde o índice não passou dos 70,8 anos. Médico e presidente do Centro Internacional de Longevidade, Alexandre Kalache comentou sobre o que influenciou esta mudança e por que, mesmo com os avanços, o Nordeste ainda apresenta o segundo pior índice do Brasil. Ele reflete sobre como o salto na expectativa de vida impacta na saúde pública e quais os desafios que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisará enfrentar.

Dados do IBGE de 2013 mostraram que a esperança de vida ao nascer aumentou 13 anos no Nordeste entre 1980 e 2010. Apesar do salto, a região ainda tem o segundo pior índice e fica atrás apenas do Norte. O que influenciou este aumento e por que, apesar disso, o Nordeste ainda apresenta índice abaixo da média nacional?

A expectativa de vida ao nascer aumentou em função do controle das doenças infecciosas que, na maior parte das vezes, matam crianças e adultos jovens. Ninguém morre de sarampo com 75 anos, mas quando você controla as mortes por sarampo ou tuberculose, por exemplo, você está salvando vidas jovens e esta acrescendo anos na expectativa de vida de todos. É a transição epidemiológica.  O Nordeste tinha as taxas mais altas destas doenças, que matavam muita gente. A mortalidade infantil era, e talvez ainda seja, a mais alta do Brasil e, embora tenha havido um ganho, vai levar um tempo pra baixar aos níveis se compararmos a outras regiões, como Sul ou Sudeste. Então, o fato de ser mais alta ou de ser mais baixa apenas indica que a região começou a partir de índices mais altos e continuam mesmo que tenham feito tanto quanto ou mais progresso que outras regiões. Isso leva um tempo.

O que este aumento traz como novas demandas para o Sistema Único de Saúde?

Não é uma mudança radical no sentido de não substituir o foco nessas doenças, porque elas permanecem como ameaça. Nessa fase de transição, além de nos preocuparmos com essas doenças infecciosas, precisamos estar preparados para atender às demandas das doenças crônicas que começam a aparecer ainda mais. Doenças como câncer, diabetes e hipertensão precisam ganhar a mesma atenção e ao mesmo tempo da mortalidade infantil e das doenças da primeira infância, por exemplo. É uma carga dupla.

O que é preciso fazer a curto e em longo prazo para dar conta deste novo panorama?

É necessário preparar a atenção primária. Isso significa que é preciso dar uma resposta ao nível da comunidade onde as pessoas vivem. Dessa forma aliviamos, inclusive, a pressão nos hospitais e instituições onde os tratamentos são mais caros. Quanto mais cedo você detecta, por exemplo, um câncer de mama ou uma hipertensão, mais cedo você faz uma intervenção ou inicia um tratamento e evita as complicações que viriam. Se você diagnostica uma hipertensão e consegue cuidar disso de forma adequada na atenção primária, você tem uma demanda a menos de hospitalização, o que significa menos gastos para o poder público e, claro, mais qualidade para esse paciente. Se uma mamografia detecta que o indivíduo não precisa de um tratamento radical, como tirar a mama, e uma pequena intervenção pode ser feita para tirar o nódulo inicial, é muito mais barato e muito menos arriscado para o paciente. Todos ganham. Para isso é preciso investir na atenção primária, nos centros de saúde no Sertão, nas periferias e nas zonas mais pobres.

Há uma tendência da expectativa de vida continuar aumentando no Nordeste e no país?

Com certeza. A gente ainda tem uma margem grande para ganhos que podem vir através da prática sanitária, tratando bem e prevenindo doenças, proporcionando acesso às vacinas. Não se morre mais como há 30 anos. Hoje, mesmo nas regiões mais remotas, conseguimos ter o mínimo acesso à água potável. Para isso, é preciso ter mais avanços na saúde pública, em paralelo ao aumento também do nível educacional, sobretudo das mães, que são quem cuidam das crianças e da casa na maioria dos lares. Além disso, é preciso pensar em tudo de forma global: deter a violência – muitos jovens morrem assassinados ou em acidentes que poderiam perfeitamente ser evitados. Hoje já temos, por exemplo, boa parte dos jovens se conscientizando sobre dirigir alcoolizado, uma preocupação que não existia há 30, 40 anos. Tudo isso vai contribuir para que a gente conquiste os ganhos que ainda cabem. Se pegarmos as projeções, vamos ver que em 2042, 2045 devemos ter chegado numa expectativa de vida de 80 anos.

Alexandre Kalache

Citação Bibliográfica

Kalache A. Expectativa de vida do nordestino aumenta, mas ainda está abaixo da média nacional [entrevista na internet]. Recife (PE): Portal DSS Nordeste; 2014 Set 08. Entrevista concedida a Maira Baracho. Disponível em: http://dssbr.org/site/entrevistas/expectativa-de-vida-do-nordestino-aumenta-mas-ainda-esta-abaixo-da-media-nacional/

Alexandre Kalache é médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desde 2012 é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (Internacional Longevity Centre Brazil). Já foi diretor do Departamento de Envelhecimento e Curso da Vida da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 1995 a 2008. Com base na sua carreira médica inicial no Brasil, Kalache passou mais de 30 anos estudando e trabalhando na Europa e nos EUA, principalmente, Londres, Oxford, Granada, Genebra e Nova York. Seus cursos de pós-graduação (Mestrado em Medicina Social, em 1977, e PhD em Epidemiologia, em 1993) foram realizados no Reino Unido. De 1977 a 1984, ocupou o cargo de Professor Clínico e Pesquisador Sênior (sob a orientação do Professor Sir Richard Doll) na Universidade de Oxford. Ele foi o fundador da Epidemiology Unit do Envelhecimento da Escola de Higiene e Medicina Tropical (Escola Reino acima de tudo de Saúde Pública), onde também lecionou de 1984 a 1995, na mesma instituição, ele também concebeu e coordenou o primeiro Europeu Londres curso de Mestrado em Promoção da Saúde (1991).

1 Comentário em “ Expectativa de vida do nordestino aumenta, mas ainda está abaixo da média nacional ”

  1. Francisco das Chagas Martins de Sousa
    27/01/17 - 12:01

    Muito importante esse tipo de informações sobre a saúde da população nordestina.

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