Mauricio Barreto: “É falso pensar que os migrantes são responsáveis pela disseminação de problemas de saúde”

Entrevista com Mauricio Barreto

08/05/19 | 17:05

A entrevista que o médico e professor Mauricio Barreto dará a Saúde ao Sul será por telefone. Ele está na Universidade Federal da Bahia (UFBA), na cidade de Salvador, e os escritórios do ISAGS no Rio de Janeiro. Ambas as cidades, no Brasil. Neste caso, a tecnologia ajudou para que ninguém tenha que viajar para atingir o objetivo: falar sobre migrações no campo da saúde

Agora, o que é migrar? Alguém que se move de um lugar para outro se inscreve nessa categoria? Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), uma organização pertencente à ONU “, um migrante é qualquer um que mude ou tenha mudado através de uma fronteira internacional ou dentro de um país, fora do seu local de residência habitual, independentemente de: 1) seu status legal; 2) a natureza voluntária ou involuntária do deslocamento; 3) as causas do deslocamento; ou 4) a duração da sua estadia. ”

Antes de começar a ouvir as perguntas, Barreto, que é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UFBA, intervém fazendo um esclarecimento. “Eu gostaria de dizer antes de qualquer coisa que nem toda migração é forçada e, embora isso seja algo óbvio, nestes tempos parece não ser muito. Algumas pessoas migram por sua própria opção. Existem países desenvolvidos com políticas destinadas a atrair imigrantes. O Canadá tem uma forte política de atrair profissionais qualificados. Os próprios Estados Unidos têm até hoje políticas para atrair pessoas altamente qualificadas. Além disso, a Inglaterra e muitos países europeus atraem profissionais de várias áreas, incluindo a saúde. Com a discussão do Brexit, estamos vendo hoje que a Inglaterra tem um problema sério: grande parte de sua força de trabalho, especialmente em algumas áreas, como a enfermagem, é formada por pessoas de outros países. Haverá grande tensão se essas pessoas não continuarem a compor os quadros profissionais. Isso pode criar sérios problemas para o sistema de saúde inglês”.

Embora seja verdade que há uma porcentagem de migrantes que entram nesses grupos sociais, vemos que atualmente a grande massa migratória tem a ver com outro tipo de processos sociais, ligados a situações de pobreza, exclusão e guerra.

Claro! Em geral, a migração ocorre entre pessoas excluídas, perseguidas ou por causa da pobreza e da crise, diversas guerras, fome e secas. Em suma, qualquer coisa que desestabilize a vida e leve as pessoas a buscar melhores condições em outro país. Essas pessoas são sensíveis, elas precisarão, com frequência, de algum tipo de apoio do país de recebimento. Isso tem sido comum na história da humanidade. Tanto que, internacionalmente, existem políticas para refugiados, para proteger grupos que migram por motivos religiosos, guerras, etc. São acordos internacionais para a proteção dessa população.

O que acontece nestes tempos, em que vemos que esses acordos internacionais e históricos não são respeitados e que acontece o contrário?

É quando vemos grandes populações sujeitas a condições muitas vezes desumanas. Isso agrava a condição deles. Em muitos países, você tem prisões reais, centros onde esses migrantes são deixados em condições subumanas. Então, isso é um fator de agravamento de diversas condições. No caso dos imigrantes, especialmente em lugares onde há retenção desses migrantes, suas condições gerais de saúde pioram. Tanto a saúde física como mental.

Quais são os efeitos na saúde mental que os migrantes sofrem?

Uma profunda deterioração do estado mental e diversas imagens depressivas entre os migrantes. A depressão é hoje uma das grandes doenças da humanidade. O que muitas vezes leva a um aumento de suicídios entre esse grupo social.

Atualmente estamos testemunhando o crescente mito de que a reprodução e disseminação de epidemias é uma consequência dos processos migratórios, apesar das evidências científicas em contrário. Estamos vivendo estes dias com o surto de sarampo, só para dar um exemplo, como você luta contra esse mito?

Essa questão de espalhar informações falsas é comum em várias áreas, como estamos vendo. Sempre existiu e hoje, com as redes sociais, é abundante. Por exemplo, temos a questão das vacinas. Há uma imensa disseminação de informações, que já se tornou um problema muito sério. A OMS colocou o problema da negação da vacinação na lista de seus dez problemas de saúde. Há um conjunto de atividades que tentam mostrar os efeitos adversos alegados, criando e expandindo o número de pessoas que estão começando a rejeitar vacinas em todo o mundo. No campo da migração, é o mesmo. É fácil divulgar ideias sobre migrantes disseminando doenças. Isso cria uma predisposição contra a migração.

É falso pensar que os migrantes são responsáveis ​​pela disseminação de problemas de saúde. A evidência não prova isso. Hoje você tem uma circulação de agentes infecciosos que é importante, mas que não está ligada a migração está muitas vezes ligada ao turismo, o movimento de indivíduos para um número de razões pelas quais há um deslocamento de agentes infecciosos que são dominantes em um determinad região do planeta e que pode se espalhar para outro. Por exemplo, a introdução da Zica no Brasil. Todas as evidências de hoje apontam para a chegada da doença ligada ao turismo em torno da Copa do Mundo de 2014, quando milhões de pessoas vieram ao país. Não tem nada a ver com qualquer movimento migratório específico. Pelo contrário, as populações migrantes são pessoas que, em geral, são saudáveis. É muito difícil pensar que alguém com uma doença tenha condições de saúde para migrar. Uma pessoa doente migraria sozinha em uma situação de extrema necessidade.

Qual é a relevância do Pacto Global de Migração da ONU, assinado em dezembro de 2018 em Marrocos?

O pacto teve um compromisso internacional muito grande e houve grandes discussões até chegar a ele. Isso representou um grande progresso no campo das políticas de migração. Logicamente, são os países que definem suas políticas nesse sentido, mas o pacto deixa como um precedente o princípio geral de que as populações humanas migrantes devem ter algum tipo de solidariedade internacional. Isso foi feito de acordo com as cartas de direitos humanos da ONU. Embora mais tarde tenha anunciado que se aposentaria, o Brasil também era signatário desse pacto. Foi um grande evento internacional. Acredito que o pacto tem um papel imenso para os países em geral, não apenas pelos movimentos migratórios normais, mas também pelos excepcionais, como aconteceu recentemente com o Haiti.

Posição dos países 12 países da UNASUL em relação ao Pacto Global sobre Migração para janeiro de 2018:

Vai adotar o pacto: Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai, Venezuela.

Não adota o pacto: Chile

Avalia não adotar o pacto: Brasil

Dados incompletos: Guiana

 

Fonte: Barreto  M. Mauricio Barreto: “É falso pensar que os migrantes são responsáveis pela disseminação de problemas de saúde”. [entrevista na internet]. Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde; 16 Abr 2019. Entrevista concedida a Daniel Salman. [acesso em 08 maio 2019]. Disponível emhttp://isags-unasur.org/mauricio-barreto-e-falso-pensar-que-os-migrantes-sao-responsaveis-pela-disseminacao-de-problemas-de-saude/

Mauricio Barreto

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