Entrevista com Pedro Alves Filho: Pesquisador desenvolve metodologia de monitoramento de saúde no entorno do Comperj

Entrevista com Pedro Alves Filho

14/11/14 | 16:11

Pedro Alves Filho

Pedro Alves Filho

Pesquisador fala da Elaboração de metodologia para análise das iniquidades em saúde relacionadas às populações vulneráveis na área do município de Itaboraí que vem desenvolvendo. O estudo, iniciado sob a coordenação do pesquisador Alberto Pellegrini Filho, que aposentou-se na coordenação do CEPI DSS e hoje sob a orientação da pesquisadora Patrícia Tavares Ribeiro, atual coordenadora, analisa os impactos nas condições de vida da população local. Pedro Alves Filho fala sobre como obras de grande dimensão geram mudanças e afetam o meio ambiente e a vida da população de múltiplas formas, o que inclui fatores que contribuem para o surgimento de complicações de saúde. “O monitoramento analítico do quadro de morbimortalidade, no município de Itaboraí e entorno do Comperj, visa contribuir para o entendimento, análise e monitoramento das iniquidades em saúde, assim como na proposição de estratégias para minimização de riscos de adoecimento e de morte que eventualmente possam emergir no decorrer do processo de implantação e consolidação do Complexo Petroquímico”, destacou ele.

 

1. Por que elaborar uma metodologia específica para analisar as iniquidades em saúde e a vulnerabilidade social no entorno do COMPERJ?

A sistematização de informações sobre as populações vulneráveis é deficitária, não apenas no estado do Rio, justamente pela influência de fatores estruturantes na vida dos cidadãos com baixo ou nenhum acesso aos serviços de saúde e demais políticas governamentais. Por consequência, a falta de visibilidade e compreensão aprofundada sobre estas populações não auxilia o bom planejamento, execução e monitoramento desses serviços e políticas, o que causa um ciclo de barreiras de acesso e vulnerabilidades que se retroalimentam.

Aprimorar a qualidade da informação em saúde, integrar os diversos bancos de dados e garantir regularidade mínima para estudos com bases amostrais válidas são condições precípuas para o planejamento estratégico, assim como para a formulação e avaliação de políticas públicas. Nesse âmbito, o estudo, análise e monitoramento das iniquidades em saúde são fundamentais, não apenas para os gestores, mas, simultaneamente, para profissionais de saúde e instâncias de participação social, como os Conselhos e as Conferências de Saúde.

O monitoramento analítico do quadro de morbimortalidade, no município de Itaboraí e entorno do Comperj, visa contribuir para o entendimento, análise e monitoramento das iniquidades em saúde, assim como na proposição de estratégias para minimização de riscos de adoecimento e de morte que eventualmente possam emergir no decorrer do processo de implantação e consolidação do Complexo Petroquímico.

 

2. Quais são os impactos mais socialmente marcantes que intervenções como a instalação de um complexo deste porte podem trazer para a vida da população local no que diz respeito às condições de vida e saúde?

Um dos maiores problemas na área de saúde são as novas configurações epidemiológicas nos territórios de implantação de grandes projetos (emergência e reemergência de agravos e doenças, aumento da exploração sexual, acidentes de trabalho, desemprego, contaminação de água, solo, etc).

Durante a 1ª. Conferencia Regional sobre Determinantes Sociais da Saúde do Nordeste, foram discutidos temas relacionados aos impactos socioambientais sobre a vida da população em geral. Os principais questionamentos giraram em torno do aumento das desigualdades já existentes como subproduto do modelo de desenvolvimento econômico, tendo em vista o rápido crescimento da população humana nas regiões metropolitanas e nos países menos desenvolvidos.

Do ponto de vista ambiental, as refinarias são grandes geradoras de poluição e contribuintes da degradação ambiental, consumindo grandes quantidades de água e de energia, produzindo grandes quantidades de despejos líquidos, liberando diversos gases nocivos para a atmosfera e produzindo resíduos sólidos de difícil tratamento e remoção.

Como resultado de tais processos, a indústria do petróleo pode se converter em empreendimento de grande impacto negativo ao meio ambiente e à saúde, gerando repercussões deletérias sobre o ar, água, solo e, simultaneamente, sobre os seres vivos que habitam o entorno territorial.

E ainda, diversos diagnósticos dos impactos decorrentes de grandes projetos são elaborados, mas há grande dificuldade em transformá-los em ações concretas. Os efeitos na sociedade são preocupantes, sendo um dos maiores problemas a desigualdade no atendimento aos trabalhadores. Aqueles que têm vínculo empregatício utilizam planos privados, o que gera invisibilidade nos dados epidemiológicos, enquanto moradores locais utilizam o serviço público de saúde.

 

3. De que forma estudos como este podem auxiliar na elaboração de políticas públicas de combate às iniquidades?

As diversas características e dimensões da pobreza necessitam ser analisadas no âmbito das pesquisas sobre condições de saúde dos indivíduos e grupos em situação de vulnerabilidade social. Com efeito, políticas públicas que visam o combate à pobreza e a redução das desigualdades em saúde, também precisam considerar o território como elemento fundamental na identificação de iniquidades. Nessa perspectiva, a compreensão do efeito da segregação socioespacial sobre o status de morbimortalidade de certas populações assume papel fundamental nos estudos sobre determinantes sociais e sua influência nas condições de vida.

 

4. Caso o governo e as prefeituras desejem se articular, buscando um modelo ajustado a este tipo de intervenção, que se volte para a promoção da equidade e a redução de impactos sociais, estudos como este teriam um papel importante, mesmo com a instalação do complexo já iniciada?

A relação com e entre os municípios precisa superar diversos obstáculos na implementação de um projeto efetivo de vigilância, sendo a descontinuidade da gestão um dos principais desafios a serem vencidos. A proposta de um modelo viável, com metodologia relativamente simples, busca facilitar o processo de gestão em saúde, na medida em que serve como parâmetro no contexto de novas pactuações e novas estratégias de análise.

É preciso realizar ações integradas entre territórios (municípios, estados) no intuito de avaliar impactos e definir políticas públicas articuladas na região, ultrapassando os limites políticos. Também é necessário discutir os planos municipais e estaduais de saúde de forma interssetorial e inter-regional para o planejamento e enfretamento dos impactos decorrentes de grandes empreendimentos.

No que tange à promoção de saúde e redução de impactos sociais, dois pressupostos vinculados à compreensão e intervenção sobre vulnerabilidade são fundamentais: O primeiro é a necessidade de considerar a pluralidade de dimensões da pobreza que precisam ser analisadas em pesquisas sobre vulnerabilidade social. O segundo, a constatação de que a segregação espacial é um importante determinante social que influencia a ocorrência de doenças associadas às vulnerabilidades em saúde, o que colabora inevitavelmente para a permanência das iniquidades em saúde. Em outras palavras, a identificação da vulnerabilidade social é uma responsabilidade da vigilância em saúde em todas as esferas governamentais, fornecendo informação para o correto planejamento e implementação de ações que possam reduzir as desigualdades, mesmo após a implantação de grandes estruturas e/ou empreendimentos.

Pedro Alves Filho

Citação Bibliográfica

Alves Filho P. Pesquisador desenvolve metodologia de monitoramento de saúde em Itaboraí [entrevista na internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2014 nov 14. Entrevista concedida a Jaqueline Pimentel. Disponível em: http://dssbr.org/site/?post_type=entrevistas&p=19395&preview=true

1 Comentário em “ Entrevista com Pedro Alves Filho: Pesquisador desenvolve metodologia de monitoramento de saúde no entorno do Comperj ”

  1. Marilze Alves
    06/03/15 - 11:03

    Parabéns Dr. Pedro !! e saber que tudo começou numa especialização permitida e “suada” pela nossa camisa aqui em Brasília, hein ?!! Caso contrário, talvez ainda o caminho fosse RJ/Perequê/Paraty (casa do portão de ferro)…
    Você merece muito mais que isto porque deu seguimento e foco a nossa insistência junto ao governo para a primeira concessão devido aos empecilhos e “pedregulhos” da época e de sua vida inteira.
    Mérito seu !! Parabéns !!
    Apareça !! Eu mereço um abraço!

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