Sanar promove redução de doenças negligenciadas em Pernambuco

Entrevista com Eronildo Felisberto

16/05/14 | 20:05

"Em três anos de existência, o Programa Sanar já conquistou algumas premiações importantes, atestando a sua legitimidade" (Foto: Miva Filho-SES/PE)Criado em 2011 com o objetivo de mudar a realidade dos pernambucanos, o Programa Sanar tem se destacado por sua atuação no combate às doenças negligenciadas no estado. Proposto pela Secretaria Estadual de Saúde, com três anos de existência o Sanar comemora o êxito na atenção, tratamento e prevenção às doenças consideradas típicas das populações mais desassistidas.

Até o ano passado, o Sanar foi responsável por uma redução de 58% nos casos de esquistossomose, 63% nos casos de geo-helmintíase, 15% nos casos de tuberculose, 41% dos casos de hanseníase e 97,5% nos episódios de filariose nos 108 municípios prioritários do programa. Além disso, capacitou 840 unidades de saúde para tratamento de tuberculose e hanseníase. Este ano o programa ganhará da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) um certificado de eliminação da filariose, doença que, graças ao programa, teve os índices reduzidos. A Região Metropolitana do Recife é único local de ocorrência na América do Sul.

Em 2013, o Sanar foi considerado a melhor experiência na área de tuberculose e populações vulneráveis na Mostra Nacional de Experiências Bem Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi). O programa também foi destaque no 49º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, no 7º Simpósio Brasileiro de Hansenologia e no Prêmio Saúde da editora Abril, aumentando o número de prêmios e reconhecimento por sua contribuição.

Diante do sucesso da iniciativa, o secretário-executivo de Vigilância em Saúde de Pernambuco, Eronildo Felisberto, conversou conosco para refletir sobre a importância do Sanar na mudança no cenário das doenças negligenciadas do estado, seus desafios e perspectivas.

Com apenas três anos de atuação, o programa Sanar já conseguiu alcançar marcas importantes no combate às doenças negligenciadas. A que se deve este sucesso?

Alguns pontos precisam ser destacados com relação ao êxito que o Programa Sanar vem alcançando ao longo da sua jornada. Neste sentido, destaco o papel fundamental do Governo do Estado, o qual assumiu para si a responsabilidade e fez de Pernambuco o primeiro estado brasileiro a desenvolver um programa específico para o enfrentamento às doenças negligenciadas, segundo o próprio Ministério da Saúde. Outro ponto a ser destacado, que ressalta o papel inovador do Programa Sanar, é a adoção de uma estratégia de enfrentamento às doenças negligenciadas de forma integrada. Para isto, a parceria com a gestão municipal nos 108 municípios prioritários tem sido condição imprescindível para que as metas do Programa sejam alcançadas. Além da integração estado-municípios, é importante citar o apoio da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS), da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CPqAM/Fiocruz), do LACEN, de pesquisadores, dos profissionais de saúde e da sociedade civil organizada.

O Sanar foi reconhecido como experiência exitosa no combate às doenças negligenciadas e recebeu alguns prêmios por isso. Quais foram esses prêmios?

Ao longo de três anos de existência, o Programa Sanar já conquistou algumas premiações importantes em âmbito nacional, atestando a sua legitimidade. Tivemos nosso trabalho reconhecido e premiado na 12ª Mostra Nacional de Experiências Bem Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi 2012), na qual o Programa foi considerado a melhor experiência na área de vigilância, prevenção e controle da hanseníase, leishmanioses e outras doenças relacionadas à pobreza; no 49° Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical; no 7º Simpósio Brasileiro de Hansenologia; no Prêmio Saúde 2013, da Editora Abril, na categoria Saúde e Prevenção, e na 13ª Mostra Mostra Nacional de Experiências Bem Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi 2013), na qual o Programa foi considerado a melhor experiência nas áreas de Tuberculose e Populações Vulneráveis.

Com relação à Expoepi, há que se dizer que esta Mostra é considerada a mais importante do país. O evento já acontece há 13 anos e mobiliza trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) de todas as regiões, com a participação de quase de três mil pessoas por ano. Na ocasião, são debatidas experiências sobre temáticas relevantes para o aprimoramento da saúde pública, com o objetivo de dar visibilidade às ações de Vigilância em Saúde e de discutir aspectos relevantes para o aprimoramento da área. Em 2013, foram inscritas 540 experiências bem-sucedidas realizadas pelos serviços de saúde em todo o Brasil, em várias categorias. Além das premiações citadas, o Programa Sanar foi um dos três projetos agraciados com o 6º Prêmio Inovação Medical Services (Sanofi).

Qual a importância de um programa de peso como este funcionar no Nordeste? Como ele pode influenciar a determinação social na saúde?

É necessário dizer que o conceito de determinação social das doenças é amplo e complexo e que temos a clareza que um programa de governo não pode dar conta disso de forma isolada. Para se ter a sustentabilidade dos resultados alcançados pelo Programa Sanar, uma série de mudanças socioeconômicas precisam acontecer no território onde as pessoas vivem. No entanto, a partir dos resultados já alcançados pelo Programa podemos perceber que, com ações práticas, integração e envolvimento ativo de diversos profissionais, estratégias bem desenhadas e metas desafiadoras, porém realísticas, é possível mudar o quadro epidemiológico que vem se perpetuando ao longo de décadas. Este é o cenário que muitos municípios do Nordeste vivem atualmente e que precisa ser modificado.

Quais as dificuldades já superadas pela equipe e os maiores desafios que o Sanar ainda encontra?

Os desafios são muitos. Durante estes três anos, o Programa investiu muito em capacitações e assessoramento técnico junto às Secretarias Municipais de Saúde, às Unidades de Saúde da Família e aos Hospitais de Referência, com o objetivo de sensibilizar gestores e profissionais de saúde quanto à importância do enfrentamento às doenças negligenciadas. É preciso que estes profissionais, que lidam diretamente com essas doenças na sua rotina de trabalho, sintam-se como partes importantes do controle dessas doenças. Este é um dos principais desafios, mas também é um dos nossos principais avanços.

Outro desafio a se considerar são as condições socioeconômicas. O alcance das metas pactuadas para o Programa Sanar dependem das condições do meio em que as pessoas vivem, pois essas condições podem e são perpetuadoras de doenças. Neste sentido, elaboramos o Relatório das Condições de Saneamento das Áreas/Localidades Hiperendêmicas em Pernambuco, que traz um levantamento detalhado das condições de abastecimento de água e esgotamento sanitário, com registro fotográfico e georreferenciamento das localidades. O objetivo desse relatório é subsidiar a gestão municipal na construção de planos de intervenção, que garantam a sustentabilidade da diminuição da transmissão da esquistossomose e geo-helmintíases. Essa iniciativa faz parte de um elenco de estratégias práticas que precisam acontecer paralelamente às ações específicas de saúde pública.

Pela experiência em Pernambuco, o senhor acha que é possível combater as doenças negligenciadas com mais firmeza em todo o país?

Sim, é possível. Desde que haja vontade política e estratégias bem definidas, com metas realísticas a serem alcançadas e o envolvimento dos diversos atores.  Temos vivenciado isso na rotina do Programa Sanar.

Quais as perspectivas do programa de agora em diante?

Temos um elenco de sete doenças a serem enfrentadas, com indicadores e metas específicos para cada uma delas. A perspectiva é que cheguemos ao final do Programa, em 2014, com essas metas alcançadas. Mas não vamos esperar que o nosso prazo termine para podermos avaliar os possíveis avanços, por isso, em novembro do ano passado realizamos o I Seminário de Avaliação do Programa Sanar. Na ocasião, foram apresentados os resultados parciais da avaliação externa que está sendo realizada sob a coordenação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e pudemos ver na apresentação do Professor dr. Luiz Augusto Facchini que, apesar de ainda em andamento, muitos avanços já foram alcançados.

Numa amostra de 21 municípios prioritários para tracoma, por exemplo, com um total de 157 escolas e 12.111 escolares examinados, 602 casos foram diagnosticados como positivos, ou seja, 4,68% de positividade. O Ministério da Saúde preconiza que a prevalência de tracoma fique abaixo de 5,0%, então podemos dizer que estamos no caminho certo.

Sabemos que não vamos conseguir acabar com essas doenças em quatro anos, por isso temos clareza de que este trabalho tem que continuar. Para isso, os gestores municipais e do estado precisarão assumir as doenças negligenciadas como prioridade, trabalhando de forma intensiva e estabelecendo objetivos claros e realistas, como temos feito. 

Eronildo Felisberto

Citação Bibliográfica

Felisberto E. Sanar promove redução de doenças negligenciadas em Pernambuco [entrevista na internet]. Recife (PE): Portal DSS Nordeste; 2014 Maio 16. Entrevista concedida a Maira Baracho. Disponível em: http://dssbr.org/site/entrevistas/sanar-promove-reducao-de-doencas-negligenciadas-em-pernambuco/

Eronildo Felisberto é médico graduado pela Faculdade de Ciências Médicas da UPE, sanitarista com Residência em Medicina Preventiva e Social pela UFPE. tem mestrado e doutorado em Saúde Pública pelo CPqAM/Fiocruz. Exerceu as funções de assessor técnico da Superintendência do Imip e foi coordenador de Acompanhamento e Avaliação do Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, no período de 2003 a 2006. Foi secretário-adjunto de Saúde do Recife e,de março a dezembro de 2010, exerceu a função de coordenador do Departamento de Avaliação do Imip. Atualmente, é secretário executivo de Vigilância em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde, responsável pela coordenação, gerenciamento, monitoramento e avaliação das ações de vigilância em saúde e da situação de saúde do Estado. Essa será a segunda passagem de Eronildo pela SES, onde já exerceu o cargo de diretor de Desenvolvimento Social.

4 Comentários em “ Sanar promove redução de doenças negligenciadas em Pernambuco ”

  1. antonio de sales onofre
    05/07/14 - 11:07

    qual é a contra partida do governo estadual, em doença de chagas na area do sertão se só for uma equipe mandada da sede (RECIFE) programados para fazer toda borrifação em 2 semanas falo do municipio de lagoa grande não vai resolver esta cobrindo uma area de 78 localidades ficando as outras descobertas.sei que chegou um carro novo para a canpanha sera que realmente vai ser para a canpanha ou para os elitizados porque doença de chagas so atinge pobres e eles não querem nem saber. não moram na caatinga. digo isso com pura verdade vão usar o carro áte não prestar mais e virar sucata,porque chegou o carro mas não contrataram gente para fazer captura do inseto-barbeiro e após borrifação de todo municipio que todo ele e carrente todos os dias eu recebo inseto vindo de todas as localidades e envio para o laboratorio de petrolina já teve caso de obito.

  2. Equipe Portal DSS NE
    06/07/14 - 22:07

    Antônio, obrigada pelo seu comentário. Vamos encaminhar seus questionamentos para a coordenação do Sanar.

  3. simone sousa
    21/10/17 - 14:10

    Gostaria de saber como faço para ter acesso prévio as informações sobre o programa. Sou aluna da UFPE e estou fazendo um pré projeto para o mestrado sobre o sanar e gostaria de informações, por não ter muitos artigos estou com dificuldade na construção do pré projeto. Desde já agradecida.

  4. Equipe Editorial do Portal DSS Brasil
    24/10/17 - 11:10

    Prezada Simone , obrigada pelo seu comentário.
    Enviaremos mais informações através de contato pelo seu e-mail.
    Atenciosamente,
    Equipe Editorial do Portal DSS Brasil

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