Sem definirmos que tipo de desenvolvimento queremos, não podemos mudar o que está posto

Entrevista com Marcos Costa Lima

27/08/15 | 13:08

“Políticas redistributivas são essenciais para dar estrutura e equilíbrio ao desenvolvimento e a qualidade do desenvolvimento” . (Imagem: Centro Celso Furtado/Divulgação)

Que tipo de desenvolvimento queremos? O cientista político e diretor da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) Marcos Costa Lima considera essa reflexão indispensável para que o padrão de crescimento econômico atual, que enseja aumento da desigualdade social e exaustão dos recursos ambientais, seja modificado em sua essência. Para ele, a resposta para essa e outras questões que envolvem a submissão da população ao poder das grandes organizações deve vir das ruas, em escala mundial, com a população tomando a frente que as lideranças não foram capazes até então. Com o tema globalização como ênfase da sua experiência em Ciência Política, ele também alerta que o galopante avanço da concentração de renda e riqueza, aliado à onda conservadora que se observa na América Latina, coloca em risco os ganhos sociais obtidos até agora e traz sérias ameaças de retrocesso político na região.

Em seu artigo A Crise Mundial e o Lugar da América Latina, feito em conjunto com Jean De Mulder e publicado no ano passado, o senhor avalia que a crise financeira mundial – iniciada em 2008 e cujos reflexos ainda não foram sanados – “exigirá reformas do capital”. Que reformas poderiam garantir o desenvolvimento econômico sem aumentar a desigualdade social, sobretudo na América Latina?

Estas reformas são extremamente importantes, mas dependerão da resposta das ruas em escala mundial. Veja o caso grego, que está em evidência: a intransigência da Troika (Banco Central Europeu, Coordenação Política União Européia e FMI) sabe que a Grécia não poderá sair do aperto com as medidas que estão exigindo. Querem dar uma demonstração de força, temendo que o que ocorrer na Grécia possa se mimetizar para os demais países endividados. A concentração de renda e riqueza em escala planetária chegou a valores jamais ocorridos, em benefício dos grandes capitais, dos bancos e multinacionais e em detrimento da maioria dos trabalhadores. Não querem ceder, pois isto, para eles, representa perda de poder e de riqueza. Veja a Espanha, que já deu uma primeira resposta contra a plutocracia. Estes movimentos tendem a crescer. Mas há outras grandes questões, a exemplo do aquecimento global e do padrão de utilização e de consumo energético, dos mares, das florestas.

A Comissão das Nações Unidas encarregada do assunto vem alardeando que este padrão não pode seguir, sobre a perspectiva de muitas tragédias. E imagine que dentro de 30 anos a população mundial ganhará mais 3 bilhões de pessoas. Se já está difícil como está, como ficará com 9 bilhões de pessoas, sem medidas que, de fato, possam mitigar os malefícios ambientais de toda sorte que prosseguem? O padrão ambiental de hoje está diretamente relacionado ao sistema financeiro e industrial existente.

Na América Latina, corremos sérios riscos de retrocesso político e dos ganhos sociais que foram obtidos, sobretudo pelos mais pobres. Novamente aqui a dimensão da organização política dos movimentos sociais nas questões mais diversas, locais, regionais, nacionais, ambientais, dos direitos humanos e das igualdades se faz necessário.

Empreendimentos como o Complexo Industrial Portuário de Suape são grandes indutores do desenvolvimento, com geração de emprego e renda, mas têm impactos enormes e, muitas vezes, com danos difíceis de serem corrigidos na área social. Os resultados desses aspectos parecem se reproduzir em quaisquer empreendimentos desse porte que se instalem na América Latina, principalmente nas áreas mais pobres. É possível não impactar? Existe como promover algum movimento/ação de transição com menos danos?

Este é o dilema que estamos vivendo. Todos querem maior poder de consumo, todos querem desenvolvimento. Mas é urgente discutirmos qual será o padrão de desenvolvimento. Como qualificaremos o desenvolvimento. Suape gerou muitos empregos por um tempo, até que as obras ficassem prontas. Pouco cuidado se teve com os danos ambientais e sociais. Quando observamos a defasagem entre o volume de recursos utilizados para a implantação industrial e, por exemplo, a qualidade de vida, de moradia, de educação e saúde em Ipojuca (município sede do Complexo), verificamos como esta forma de desenvolvimento não nos serve.

A questão energética, como sabemos, é decisiva para responder as necessidades. Mas, que tipo de energia? Temos feito esforços para implantar a matriz eólica, mas ainda em escala reduzida e, também aí, sem olharmos para as populações locais, que muitas vezes têm que ser removidas, como coisas, para as implantações dos grandes projetos. Veja que, há algumas décadas, ninguém se opunha a projetos nucleares, e só depois da tragédia de Fukushima iniciaram-se falas sobre bloquear este tipo de empreendimento. Infelizmente, os dirigentes só cuidam quando o desastre está feito. As Nações Unidas falam já há mais de 30 anos sobre o problema da escassez de água no planeta. Pois bem, apenas medidas muito paliativas foram tomadas. No Brasil, temos o caso de São Paulo, onde a incúria dos dirigentes, o desmatamento, o assoreamento dos rios acabaram gerando a situação de calamidade. Há que se mudar de paradigma.

Ainda considerando esse contexto, quando começar a agir para manter os benefícios econômicos e reduzir o impacto social e ambiental? Como prever esses impactos?

Esta é uma questão importante. Fala-se muito em desenvolvimento sustentável, mas as ações estruturais para reduzir os impactos são ineficientes ou têm pouco impacto. Quando se fala em mudança de paradigma é que se reconhece que os danos ambientais já alcançaram patamares muito grandes e fala-se até de efeitos já irreversíveis.

A sociedade de consumo de massa, que estrutura o capitalismo contemporâneo e guia a cabeça das pessoas pela força da mídia, não vem sofrendo nenhuma inflexão no sentido de reduzir o consumo conspícuo. Aí existe um aspecto importante, a saber, que os países em desenvolvimento querem “progredir” e ampliar a industrialização. E, da mesma forma, os países desenvolvidos não falam em outra coisa senão aumento do PIB, investimentos em Bolsa, novos projetos de grande envergadura, que respeitam muito pouco as restrições ambientais. Acontece que, com a “financeirização”, o capitalismo continua estimulando o crescimento da renda e da riqueza, como disse anteriormente. Mas pouco se fala da qualidade do desenvolvimento. Há um impasse. Há hoje na Europa um movimento pelo “decrescimento”, apoiado por grupos de esquerda e ambientalistas. Mas que não seja a alterar a lógica sistêmica altamente predatória.

Quanto ao controle e a aferição dos danos ambientais, existe hoje uma grande profusão de instrumentos capazes de aferir os danos, nas florestas, no nível do ar, nos mares, na biodiversidade. A COP21, que acontecerá em dezembro em Paris, é um alerta e busca o comprometimento dos países, sobretudo os mais poluidores, como China e EUA, a adotarem medidas mitigadoras. Será um momento importante.

Considerando que, a partir do governo Lula, o Nordeste ganhou lugar de maior destaque no desenvolvimento econômico do País (o que até agora lhe garante um desempenho levemente melhor do que o Nacional), como o senhor avalia a postura com que os agentes públicos têm lidado com os novos investimentos na Região? O que seria necessário para que, independentemente dos rumos do Governo Federal, o Nordeste não esmoreça economicamente?

Uma região que se atrasa comparativamente às demais dificilmente sairá do desnivelamento se não tiver um Estado ativo e  altamente concernido com o problema. E os problemas são muitos, a começar pela questão agrária e pela alta concentração de terras em poucas mãos. O apoio à pequena produção rural seria um fator indispensável, mas, para isso, o processo de reforma agrária teria que acontecer em um ritmo acelerado – e estamos longe disto. Além disso, a necessidade de apoio técnico para a promoção da diversidade agrícola é essencial. Nos falta tradição cooperativista.

Além do atraso no campo, que beneficia, sobretudo, os grandes, temos um atraso estrutural na educação. Uma mão de obra pouco qualificada para enfrentar os desafios de um mundo que demanda cada vez mais qualificação. Políticas sociais de redistribuição de renda são importantes, mas não suficientes. A região necessita de estudos para apontar os gargalos, os vazios que existem principalmente em áreas do semiárido. Os estados da região necessitariam de maior articulação, pois apenas as transferências federais não são suficientes, e de uma agência de desenvolvimento para a região com recursos e capazes de implantar políticas que não fiquem apenas beneficiando os grandes.

Hoje, as indústrias em geral são implantadas com uma tecnologia que absorve pouca mão de obra, além das que estão espalhadas pelo espaço regional sem as devidas cadeias. Já seria importante se conseguíssemos estabelecer uma grande reflexão sobre o que queremos do Nordeste. Como sair dos impasses. Em 1960, a região tinha 28% da população do país e apenas 13% do PIB. Após 55 anos, temos os mesmos 28% e 13,5% do PIB.

Em 2009, em entrevista ao jornal O Globo, o senhor comentou que a América Latina pode avançar, a partir do Mercosul e da Unasur, a União de Nações Sul-Americanas. Seis anos depois, como o senhor avalia o avanço da região e, especificamente, do Brasil, através dessas organizações?

O cenário político mudou muito desde então. Continuo entendendo que tanto o Mercosul quanto a Unasur e agora a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) são muito importantes para a região. Houve uma ofensiva dos EUA para o estabelecimento de um acordo com os países do Pacífico, que inclui Colômbia, Chile, Peru, que foi uma tentativa de reduzir o ímpeto da Unasur. A crise mundial aprofundou-se e, hoje, temos uma clara ofensiva da direita na região, na Venezuela, na Argentina, onde quiseram incriminar Cristina Kirchner no assassinato de promotor, e toda essa ofensiva contra Dilma Roussef, articulada pela grande mídia, pelos setores conservadores e de direita, articulados no PSDB e PMDB.

O que apareceu novo, de lá para cá, foi a criação do Banco dos Brics e a presença mais intensa da China em toda a região. A Cepal (ONU) inclusive organizou um importante documento da reunião Celac-China. Mas, para que o bloco regional avance, é necessário que haja projetos concretos de cooperação, seja em infraestrutura, seja em ciência e tecnologia, em educação e saúde e em segurança e defesa. É necessário também uma institucionalidade forte, capaz de organizar estas intenções. Nesse sentido, sinto falta de uma liderança moral para a região, que possa manter o diálogo e as intenções bem acesas.

Em outra entrevista, esta de 2012 ao Valor Econômico, o senhor comentou que “o mais importante para os sul-americanos é que, com exceção de um ou outro país da região, estamos tentando estabelecer um desenvolvimento com distribuição de renda, com políticas sociais inclusivas”. Naquela ocasião, o senhor avaliou que, embora fosse cedo para se falar em um novo paradigma, “ao menos [estamos] demonstrando que o anterior já não nos serve”. Observando esse contexto agora, o senhor acredita que ainda estamos montando esse novo paradigma?

Estas políticas redistributivas são essenciais. É isto que vai dar estrutura e equilíbrio ao desenvolvimento e a qualidade do desenvolvimento. A industrialização e o agrobusiness que beneficiem apenas os muito ricos não adiantam. Minha avaliação é a de que o neoliberalismo fracassou rotundamente, no sentido de trazer paz social e equanimidade na distribuição dos esforços. Mas a plutocracia dos grandes bancos, das grandes corporações, que trabalham articuladas aos Estados centrais, não querem “largar o osso”.

O caso grego é emblemático. E logo virão outros casos europeus, justamente porque os ricos não querem ceder. O poder da mídia traz de volta políticas reacionárias, do desrespeito étnico, antimigratórias, antipobres, beirando o facismo ou muitas vezes declaradamente facistas. Do lado do meio ambiente, também são muitos os problemas que vêm sendo postergados. É necessário que as pessoas que acreditam nos processos antissistêmicos se organizem, manifestem-se, porque há uma onda conservadora em escala global, que aparece como a única via, mas que não é de fato.

 

Marcos Costa Lima

Formado em Philosophie Politique na Université Montpellier 2 - Sciences et Techniques (1978), Marcos Costa Lima é mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (1985), doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1998) e pós-doutor pela Université Paris XIII- Villetaneuse (2003) . Atuando como professor visitante e convidado em diversas instituições de ensino superior da Europa e da América Latina, atualmente é diretor da Associação Brasileira de Relações Internacionais e coordenador do Instituto de Estudos da Ásia e foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

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