Projetos socioeducativos na Inglaterra para redução de desigualdades sociais

Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore - correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra

23/10/14 | 02:10

Indivíduos com pouca escolaridade e carentes de competências e habilidades específicas para o trabalho estão à margem da sociedade e têm oportunidades de vida reduzidas. São aqueles que se encontram na base do gradiente social e, portanto, são os mais vulneráveis. A falta de políticas socioeducativas, baseadas nos princípios da igualdade de oportunidades educacionais e de inclusão social, não tem prevenido a ocorrência de desigualdades na vida adulta, aumentando a distância entre os extremos do gradiente social. Dar a cada criança e sua família o melhor começo possível na vida, inclusive (e principalmente) em termos educacionais, é fundamental para reduzir as desigualdades em saúde em todo seu curso da vida.

Dando sequência a série de notícias sobre experiências inglesas na redução das desigualdades sociais, encontramos alguns programas socioeducativos sendo estudados e outros já implantados no Reino Unido. O HIPPY (Home Instruction Program for Preschool Youngsters), é um dos programas citados no relatório ‘Tackling Priority Public Health Conditions through the Social Determinants of Health’ do Institute of Health Equity. Apesar do HIPPY não ser originalmente inglês, os formuladores de políticas públicas da Inglaterra acreditam em seu princípio, que preconiza o estímulo às interações positivas entre pais e filhos, condição que desempenharia um papel fundamental na aprendizagem das crianças, aumentando significativamente o seu potencial.

programa

 

 

 

Esse programa foi iniciado em 1969 pela pesquisadora Avima Lombard, do Instituto de Pesquisa para Inovação em Educação da Universidade Hebraica de Jerusalém. Com base em sua vivência como educadora, acreditava que se um foco maior de atenção fosse dado a casa e ao núcleo familiar das crianças com dificuldade de aprendizagem, elas poderiam estar mais bem preparadas para lidar com as demandas diárias e melhorar o seu desempenho escolar. De fato, o HIPPY tem sido visto como capaz de melhorar, independente da posição no gradiente social, os resultados cognitivos, linguísticos, emocionais, comportamentais e físicos das crianças.  Além disso, o programa pode promover o crescimento dos serviços educacionais e a sua qualidade, melhorar as competências parentais e reestruturar valores, e melhorar a educação precoce através da aproximação estruturada das escolas com as famílias.

OHIPPY, além de ser um programa que inclui famílias em desvantagem social e econômica, favorecendo a redução de desigualdades sociais, destaca-se por ser também um programade empoderamento (empowerment). Os pais aumentam suas habilidades em ganhar conhecimento e ter controle sobre os processos que determinam suas vidas, refletindo benefícios para seus filhos. Fortalece, inclusive, a autoestima da mãe, através de suas atividades como educadora no ambiente doméstico. Segundo a criadora do programa, quando os pais são ativos na aprendizagem precoce de seus filhos, se inicia um longo processo que permeia toda a fase de formação da criança, aumentando a relação de respeito e reconhecimento entre ambos.

Nos EUA, o programa HIPPY já é está bem consolidado e possui resultados muito positivos. Em outros sete países, onde já foram realizadas 17 avaliações, o impacto e as evidências foram consistentes em demonstrar resultados no mesmo sentido: as conquistas das crianças e os escores de desenvolvimento cognitivo foram maiores devido ao envolvimento dos pais com a educação e a melhor relação entre pais e filhos. Outro dado relevante apresentado por esses estudos revela que as famílias mais vulneráveis ​​necessitaram de maior apoio para alcançar resultados semelhantes (Westheimer, 2003).

Na Inglaterra, outro exemplo de política socioeducativa ocorre em Birmingham, a segunda maior cidade do Reino Unido. Lá tem sido aplicada uma estratégia chamada Brighter Futures, que atua nos primeiros anos e na educação das crianças e jovens. Possui fundamentação teórica semelhante ao HIPPY, mas engloba além da alfabetização, ações que promovam a melhoria da saúde física da criança, comportamento, saúde emocional, desenvolvimento social e desenvolvimento de habilidades para o trabalho. Dentro dessa estratégia existem oito programas, dentre eles podemos citar o Triple P (Positive Parenting Program) e o PATHS (Promoting Alternative Thinking Strategies). O primeiro, originalmente desenvolvido na Austrália, é um programa para pais de crianças entre 4 e 9 anos de idade com problemas emocionais e comportamentais. O PATHS, inicialmente desenvolvido nos EUA, consiste em um programa escolar (curricular) que desenvolve o reconhecimento de emoções e valores (estratégias pensamento alternativo), envolvendo escolhas de comportamento pessoal e social de crianças com idade entre 4 e 6 anos.

Atualmente um projeto piloto do Brighter Futures com cinco programas está acontecendo em Birmingham. Cada programa será testado por dois anos e durante esse tempo as informações serão coletadas e utilizadas para avaliar a sua efetividade em crianças, jovens e famílias. Tão logo os resultados positivos venham à tona, o projeto será implementado em toda a cidade.

Em todos esses projetos de prevenção e intervenção precoce são esperados benefícios em longo prazo, mas além da melhoria da educação nos primeiros anos, espera-se que a saúde mental e física das crianças e dos jovens e suas famílias sejam melhoradas. O papel de pais e cuidadores é fundamental para que sejam atingidas essas metas. Seja em casa, como o HIPPY propõe; direcionado somente aos pais, como o Triple P; ou na escola, como sugere o PATHS, a ideia central é preparar os pais para enfrentar o desafio da educação e motivar crianças nos primeiros anos de vida a fim de que alcancem todo o seu potencial. Sobretudo, favorecer a redução de desigualdades sociais por meio de maiores oportunidades de educação e de inclusão social.

 

Referências Bibliográficas

 

Axford N, Hobbs T, Jodrell D. Making child well-being data work hard: getting from data to policy and practice. Child Indic Res. 2013 Mar;6(1):161-177.

Baker AJL, Piotrkowski CS, Brooks-Gunn J. Program effectiveness and parent involvement in HIPPY.” Parents making a difference: international research on the home instruction for parents of preschool youngsters (HIPPY) program. Ed Miriam Westheimer. Jerusalém, Israel: Magnes; 2003. p. 251-261.

Brighter Futures. [acesso em 30 set 2014]. Disponível em: http://www.brighterfutures.bham.org.uk/71.cfm?s=71&m=3973&p=2862,index

HIPPY International. [acesso em 30 set 2014]. Disponível em: http://www.hippy-international.org/about-hippy/early-history

Institute of Health Equity. [acesso em 30 set 2014]. Disponível em: http://www.instituteofhealthequity.org/projects/home-instruction-programme-for-pre-shool-youngsters

Triple P – Positive Parenting  Program. [acesso em 30 set 2014]. Disponível em: http://www.triplep.net/glo-en/home/

Westheimer M. Parents making a difference: International research on the home instruction for parents of preschool youngsters (HIPPY) program. Jerusalém: Magnes Press, Hebrew University; 2003.

Citação Bibliográfica

Lamarca G, Vettore M. Projetos socioeducativos na Inglaterra para redução de desigualdades sociais [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2014 Out 23. Disponível em: http://dssbr.org/site/experiencias/projetos-socioeducativos-na-inglaterra-para-reducao-de-desigualdades-sociais/

Gabriela Lamarca e Mario Vettore - correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra

Gabriela de A. Lamarca. Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública.
Mario Vianna Vettore. Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública.

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