Série sobre agrotóxicos (2)- Hortas urbanas: modelo inglês de agricultura de subsistência

Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore- correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra

03/09/14 | 12:09

Horta urbana na Inglaterra/ Foto: Gabriela Lamarca

Horta urbana na Inglaterra/ Foto: Gabriela Lamarca

É difícil pensar nos dias de hoje na existência de hortas domiciliares em cidades altamente urbanizadas. No entanto, em países desenvolvidos, como o Reino Unido, existem atualmente mais de 300.000 loteamentos urbanos com essa finalidade. Em Sheffield, uma das quatro maiores cidades da Inglaterra, a prefeitura gerencia mais de 3.000 lotes situados em mais de 70 áreas diferentes na cidade e arredores. Esses lotes são oferecidos a baixo custo para os moradores da cidade que desejam cultivar vegetais, frutas e ervas para consumo próprio, além de flores. Esse é um sistema muito antigo, mas ainda tão promissor e interessante que possui uma lista de espera com cerca de 2.300 interessados.

Segundo a BBC, rede de notícias da Inglaterra, a criação de lotes para plantação em áreas urbanas para uso e consumo próprios começou com o movimento “Dig for Victory” (cavar/plantar para vitória), que encorajava as pessoas a transformar jardins, parques e campos de esportes em loteamentos para cultivar legumes, bem como criar seus próprios animais, como galinhas, coelhos e cabras (vídeo: http://www.nationalarchives.gov.uk/theartofwar/films/dig_victory.htm). Essa campanha foi a maneira pela qual o governo da Grã-Bretanha encontrou para lidar com as medidas de austeridade em relação à produção e distribuição de alimentos durante a Segunda Guerra Mundial. O sistema deu certo e o incentivo permanece até hoje em algumas cidades britânicas, principalmente após os tempos difíceis de crise de 2010.

Dig for Victory

 

Charge

Charge sobre a campanha ‘Dig for Victory’ na Grã-Bretanha (Junho, 1943)

 

Em Sheffield, uma dessas cidades que aderiram a esse sistema de agricultura, é fácil encontrar entre as casas de bairros extremamente residenciais, como Nethergreen ou Firth Park, esses terrenos loteados com hortas e estufas. Em 2013, por exemplo, um lote até 200m2, teve um custo anual de aproximadamente R$195,00 (incluindo custos com irrigação). A partir de março de 2014, esse valor será reajustado para R$310,00. No entanto, é possível se beneficiar de um desconto de 50% se o locatário for pensionista do Estado, desempregado, deficiente físico, possuir baixa renda ou for estudante em tempo integral. Também são feitas concessões (25%) para aqueles com 60 anos ou mais de idade.

Hortas são alternativas saudáveis

Hortas são alternativas saudáveis/ Imagem: Gabriela Lamarca

No caso de os locatários nunca terem experimentado esse tipo de atividade antes, é possível encontrar livretos com dicas fornecidos pela própria prefeitura, além de livros e websites com informações sobre jardinagem e diferentes tipos de cultivo. Não é raro, inclusive, que alguns vizinhos de lote estejam dispostos a dar conselhos e ajudar uns aos outros. Assim, trata-se de uma boa oportunidade de aprendizado e trocas, de desenvolvimento de novas habilidades e conhecimentos, que representa uma escolha positiva de estilo de vida.

Além das frutas e legumes cultivadas nesses loteamentos urbanos serem frescos e saudáveis e, por isso, com sabor e textura inigualáveis, possuem um controle de cultivo do próprio consumidor, que incluem, por exemplo, o uso de determinados insumos agrícolas ou ainda a produção de alimentos essencialmente orgânicos. Além desses benefícios, esse tipo de incentivo de algumas prefeituras britânicas representa uma boa maneira de fazer amizade com pessoas que compartilham o mesmo interesse sobre jardinagem e horticultura, bem como uma ótima forma de relaxar, de fazer um exercício saudável e reduzir os efeitos do estresse da vida moderna. Assim, essa política pública representa um grande benefício para o bem-estar físico e mental da sua população.

Segundo recomendações da própria prefeitura de Sheffield, antes de começar a trabalhar no lote, o locatário deve elaborar um plano de ação no qual ele deve descrever o que gostaria de ver crescer em seu lote e possibilidades futuras. Isso é necessário principalmente porque alguns locatários não estão mantendo seus lotes corretamente, apesar da grande dificuldade em consegui-los. É importante salientar que existem também algumas regras, e os locatários não são totalmente livres para fazer da terra o que bem entenderem. Dentre elas, podemos citar que pelo menos 75% da área total deve ser usada para cultivar as frutas e legumes. Dessa forma, gramados, galpões, pilhas de compostagem, flores e ervas, áreas de lazer, quando somadas, não devem ocupar mais do que 25% da área total do lote, o que cria certa organização em relação à ocupação e produção nos lotes.

Esse sistema de hortas urbanas pode ser considerado uma forma de agricultura de subsistência, pois é realizado em terrenos pequenos e médios, possui mão de obra familiar, necessita de baixa capitalização e baixa tecnologia, e tem produtividade reduzida. Em diferentes países, como a Inglaterra ou o Brasil, onde a inflação tem impactado no preço dos alimentos, a produção do próprio alimento pode ser uma solução interessante, inclusive para as grandes metrópoles, como o Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, o setor de subsistência brasileiro é quase sempre definido de maneira negativa ou residual, supostamente por não ser núcleo estruturante da economia, não possuir dinâmica própria e depender da grande lavoura. Ademais, como não é dirigido aos mercados, tende a ser absorvido e dominado (Delgado, 2004). Sobretudo, no Brasil, o chamado setor de subsistência parece contrapor-se à modernidade. No entanto, nada deveria ser considerado mais moderno e dinâmico do que desenvolver habilidades e capacidades, além de estimular estilos de vida saudáveis, como é o caso dessas hortas urbanas britânicas.

Veja aqui algumas imagens das hortas urbanas.

Referências Bibligráficas

Big expansion planned for Sheffield allotments. BBC; 2010 Set 15. [acesso em 21 jan 2014]. Disponível em: http://news.bbc.co.uk/local/sheffield/hi/people_and_places/nature/newsid_9002000/9002864.stm

Delgado GC. O setor de subsistência na economia brasileira: gênese histórica e formas de reprodução. [acesso em 21 jan 2014]. Disponível em: http://desafios2.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/livros/Cap_1-10.pdf

Dig for Victory. [acesso em 21 jan 2014]. Disponível em: http://www.educationscotland.gov.uk/scotlandshistory/20thand21stcenturies/worldwarii/digforvictory/

Dig for Victory. [acesso em 21 jan 2014].  Disponível em: http://www.spartacus.schoolnet.co.uk/2WWdig.htm

Leake J, Adam-Bradford A, Rigby JE. Health benefits of ‘grow your own’ food in urban areas: implications for contaminated land risk assessment and risk management? Environ Health. 2009 [acesso em 21 jan 2014];8(Suppl 1):S6. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2796502/. doi:  10.1186/1476-069X-8-S1-S6.

Um filme sobre a campanha ‘Dig for Victory’. [acesso em 21 jan 2014]. Disponível em: http://www.nationalarchives.gov.uk/theartofwar/films/dig_victory.htm

 

Citação Bibliográfica

Lamarca G, Vettore M. Hortas urbanas: modelo inglês de agricultura de subsistência [Internet]. Rio de Janeiro: Portal DSS Brasil; 2014 Set 03. Disponível em: http://dssbr.org/site/?post_type=experiencias&p=17536&preview=true

Gabriela Lamarca e Mario Vettore- correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra

Gabriela de A. Lamarca. Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública.
Mario Vianna Vettore. Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública.
Ambos são correspondentes do portal DSS Brasil na Inglaterra.

Tags: ,

Deixe um comentário