O padrão de consumo de bebidas alcoólicas na região Nordeste do Brasil

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Por Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore

27/03/13 | 16:03

O consumo de bebidas alcoólicas é um comportamento aceito na maioria das culturas. A Organização Mundial da Saúde estima que 2 bilhões de pessoas no mundo consumam bebidas alcoólicas e 76,3 milhões possuam diagnóstico de seu consumo abusivo. Nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, as bebidas alcoólicas são um dos principais fatores de risco para morbimortalidade, o que representa uma proporção de 8 a 15% do total de problemas de saúde dessas nações (World Health Report, 2002). O consumo abusivo do álcool é responsável por cerca de 3% de todas as mortes que ocorrem mundialmente, incluindo desde cirrose e câncer hepático até acidentes, quedas, intoxicações, violência doméstica e homicídios (Meloni e Laranjeira, 2004). No Brasil, entre 2006 e 2010, o consumo abusivo de álcool cresceu 11% (VIGITEL), e já pode ser considerado um grave problema de saúde pública, que se relaciona com diversos agravos à saúde.

De acordo com o I Levantamento Nacional sobre padrões de consumo de álcool na população Brasileira, realizado em 2007, 52% dos brasileiros acima de 18 anos ingerem bebidas alcoólicas pelo menos 1 vez ao ano, sendo 65% homens e 41% mulheres. Cerca de 48% dos brasileiros reportaram que nunca bebem ou que bebem menos de 1 vez por ano. No grupo dos adultos que bebem, 60% dos homens e 33% das mulheres consumiram 5 doses ou mais na vez em que mais beberam no último ano. Entre os homens adultos, 11% bebem todos os dias e 28% consomem bebida alcoólica de 1 a 4 vezes por semana.

O mesmo levantamento mostrou que, embora a maior porcentagem de pessoas que bebem esteja nas classes A e B e na Região Sul, é nos Estados das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, e na classe E, que se consome o maior número de doses a cada vez que se bebe, principalmente com consumo de bebidas alcoólicas destiladas. Esses resultados são reforçados pelos dados do VIGITEL que foram analisados por Alcides Carneiro e colaboradores do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP/ Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro), e apresentados anteriormente em nosso Observatório. Segundo os autores, as capitais brasileiras com maior crescimento do consumo abusivo de álcool foram Belém (23%), São Paulo (19%) e Recife (17%), sendo que as maiores frequências desse hábito foram encontradas em Recife (25,2%) e Salvador (24,0%).

Além de se avaliar a frequência com que se ingere bebidas alcóolicas, é importante também conhecer o seu consumo numa única ocasião. Consta no I Levantamento Nacional que é na quantidade de doses tomadas em um único dia que o beber como lazer pode se transformar em uso nocivo do álcool, com danos para a saúde que vão desde a exposição a doenças ao risco de acidentes graves. É na nuance nos padrões de consumo de bebidas alcoólicas de uma população que reside as diversas consequências sociais decorrentes do consumo elevado episódico do álcool.

A OMS e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos definem como consumo moderado de álcool a ingestão de uma dose/dia para as mulheres e duas doses/dia para os homens. A ingestão de doses diárias acima desse padrão é considerada prejudicial e representa risco para a saúde dos indivíduos. Segundo o Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos não Transmissíveis, Conprev/INCA/MS (2002-2003), o consumo também varia por gênero. Em todas as capitais, um percentual significativamente maior de homens, em relação a mulheres, relatou ter consumido bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias. Essa razão variou de 1,4 vezes em Porto Alegre a 2,6 vezes em Manaus. As capitais das regiões Norte e Nordeste foram as que apresentaram as maiores razões de prevalência de consumo atual entre homens e mulheres.

Um estudo seccional retratou o perfil do consumo de bebidas alcoólicas e fatores associados a esse hábito em um município do Nordeste do Brasil. Ferreira e colaboradores relataram que a maior frequência e quantidade de uso de álcool estão entre os homens, quando comparados com as mulheres, e entre os jovens quando comparados com os adultos e os idosos. Em relação à escolaridade e à renda, observou-se uma distribuição mais complexa, na qual o consumo revelou-se mais elevado nos grupos de maior escolaridade, bem como nos de maior renda. No entanto, o relato de problemas relacionados ao consumo aparece mais nos grupos de menor escolaridade, que provocam prejuízo a si mesmo ou a outrem pelo menos alguma vez na vida. A ocorrência do padrão de consumo pesado episódico de álcool (binge drinking – acima de 5 doses para os homens e 4 doses para as mulheres) foi algo marcante nesse município do estado da Bahia. É importante lembrar que o beber pesado episódico está associado a mais e maiores problemas físicos, sociais e mentais do que padrões de consumo mais regulares.

Segundo Whitehead, o abuso de álcool tem forte impacto na geração de iniquidades em saúde. Vários estudos mostram que a situação econômica precária está fortemente associada com altos níveis de consumo de álcool, o qual é identificado como um importante mecanismo através do qual a tensão psicossocial é traduzida em saúde precária e mortalidade mais alta. Para um determinado nível de excesso de consumo, as consequências nocivas à saúde podem ser maiores para trabalhadores manuais em comparação com outras profissões. Homens dedicados a trabalhos manuais não especializados tem susceptibilidade aumentada aos efeitos prejudiciais do álcool, o que pode ser explicado por diferenças nos hábitos de beber (binge drinking é mais comum entre eles) e pelas redes de proteção social. Além disso, a natureza do trabalho faz com que trabalhadores manuais sejam mais propensos a acidentes e traumatismos relacionados com o álcool.

Também segundo Whitehead, um importante elemento são as redes sociais de apoio, tanto no trabalho como em casa, pois são capazes de amortecer e reduzir os efeitos negativos do abuso de álcool. Um trabalhador manual que venha trabalhar bêbado corre maior risco de ser despedido de seu trabalho e de experimentar um ciclo vicioso de saúde precária devido a desemprego, tensão econômica, aumento de problemas sociais e consumo de álcool. Há, portanto um efeito negativo duplo do consumo excessivo de álcool sobre as iniquidades sociais: homens de grupos socioeconômicos mais baixos tendem a beber mais que o resto da população e também sofrem um impacto negativo maior sobre a saúde para um determinado nível de sobre-consumo.

Para Meloni e Laranjeiras,a avaliação do custo social relacionado ao álcool demonstra que o ambiente social no qual o álcool é consumido, conforme sua estruturação econômica e regras de convívio, determina diversos matizes de inserção do consumo alcoólico, ao mesmo tempo em que é diretamente influenciado pelos padrões de uso vigentes. Ou seja, traços culturais e variáveis socioeconômicas, como renda e escolaridade, andam a par e passo com o perfil de consumo de bebidas alcoólicas. Os autores afirmam que os problemas envolvidos no consumo de bebidas alcoólicas crescem à medida que as nações se desenvolvem e, ao mesmo tempo, o consumo do álcool passa a ser um dos principais fatores limitantes do desenvolvimento social e econômico dessas nações.

Uma agenda de políticas públicas que contemple a elaboração de intervenções de fiscalização e controle social das bebidas alcoólicas se faz necessária no Brasil. Ações com um maior enfoque em jovens de 18 a 24 anos, que são os que mais bebem, são fundamentais. Além de medidas para reduzir o consumo de álcool como aumento do preço e barreiras à sua acessibilidade. Outras opções de políticas desde uma perspectiva de equidade devem também dar conta de fatores sociais mais gerais responsáveis pelo abuso do álcool como o desemprego e a exclusão social. O acesso ao tratamento precisa ser ampliado e devem ser fortalecidos sistemas sociais de apoio no trabalho, na família e na comunidade para reduzir o impacto negativo para saúde entre grupos de menor renda.

*Imagem da home: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/58alcoolismo.html

Referências Bibliográficas

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Ferreira LN, Sales ZN, Casotti CA, Bispo Júnior JP, Braga Júnior AC. Perfil do consumo de bebidas alcoólicas e fatores associados em um município do Nordeste do Brasil. Cad Saúde Pública [periódico na internet]. 2011 [acesso em 15 mar 2013];27(8):1473-86. Disponível em: http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2011000800003&lng=en&nrm=iso&tlng=en. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011000800003.

Laranjeira R, Pinsky I, Zaleski M, Caetano R, organizadores. I Levantamento Nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas; 2007 [acesso em 15 mar 2013]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relatorio_padroes_consumo_alcool.pdf

Meloni JN, Laranjeira R. Custo social e de saúde do consumo do álcool. Rev Bras Psiquiatr [periódico na internet]. 2004 Maio [acesso em 15 mar 2013];26 Suppl 1:S7-10. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462004000500003. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462004000500003.

Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Instituto Nacional de Câncer, Coordenação de Prevenção e Vigilância. Inquérito domiciliar sobre comportamentos de risco e morbidade referida de doenças e agravos não transmissíveis: Brasil, 15 capitais e Distrito Federal, 2002-2003. Rio de Janeiro: INCA; 2004. Consumo de álcool; p. 111-120 [acesso em 15 mar 2013]. Disponível em: http://www.inca.gov.br/inquerito/docs/completa.pdf 

Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Vigitel Brasil 2010: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde; 2011. (Série G. Estatística e Informação em Saúde). [acesso em 15 mar 2013]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_2010.pdf

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Citação Bibliográfica

Lamarca G, Vettore M. O padrão de consumo de bebidas alcoólicas na região Nordeste do Brasil [Internet]. Recife (PE): Portal DSS Nordeste; 2013 Mar 27 [acesso em]. Disponível em: http://dssbr.org/site/2013/03/o-padrao-de-consumo-de-bebidas-alcoolicas-na-regiao-nordeste-do-brasil/

Por Gabriela Lamarca e Mario Vettore

Gabriela de A. Lamarca. Odontóloga, Mestre em Psicologia Social, Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública.
Mario Vianna Vettore. Odontólogo, Mestre em Odontologia, Doutor em Saúde Pública